01/04/2017

Sobre LOVE. A série

Eu já fui Gus.

Já tive a sensação de que era obrigada a salvar a pessoa que ocupava a posição ao meu lado. Já consegui bolsa na faculdade para um namorado que não sabia o que fazer da vida; já arrumei emprego para outro que sabia que queria ser diretor de arte, mas nunca tinha aberto o Photoshop. Já fiz as vezes de médico e mãe para o meu ex-namorado diabético e lembrava-o o tempo todo de medir sua glicemia, de comer melhor, de beber menos. Para mim, eu tinha que fazê-los irem mais longe, de obrigá-los a enxergarem suas imagens de acordo com meus olhos; de salvá-los. Assim como Gus faz com Mickey: eu me portava como uma cheerleader adolescente torcendo por cada passo que eles davam. O resultado foi o mesmo com todos: eu não podia salvá-los porque eles não queriam ser salvos.

Eu já fui Mickey.

Já conheci pessoas incríveis e que preenchiam todos os meus "pré-requisitos" de pessoas namoráveis, mas fui uma escrota com elas porque não sabia lidar com o que eu sentia. Me sentia pressionada a retribuir algo que eu nem sabia o que era e me sentia péssima por não fazê-lo da forma que eu julgava que fosse a correta. Já coloquei os pés pelas mãos quando percebi que o que eu sentia era maior do que eu pensava; já sofri por simplesmente não conseguir sentir nada pela pessoa que estava dando tudo de si por mim; já fugi por medo de não saber lidar. Já errei mais vezes do que gostaria de assumir.

É por isso que Love é tão difícil de digerir: porque você se identifica.

Com os dois lados.

Love não é uma série para você se distrair e nem vai te prender por sua fofura. Muito pelo contrário: é muito provável que ela desperte alguns gatilhos emocionais pesados em você porque, infelizmente, Love é real.



Todo mundo já demorou para responder uma mensagem e todo mundo já ficou checando o celular de cinco em cinco minutos enquanto ela não vinha. Todo mundo já teve a autoestima destruída por causa de um ghosting, ou imediatamente melhorada após a resposta do WhatsApp. Todo mundo já stalkeou a pessoa que gosta. Todo mundo já amou mais. Todo mundo já amou menos. Todo mundo já se sentiu triste em um dia perfeito, a dois, porque pensou que logo tudo aquilo acabaria. Todo mundo já sofreu com a incerteza. Todo mundo já teve medo de se entregar. Todo mundo já colocou os pés pelas mãos. Todo mundo já estragou tudo.

Hollywood já explorou o assunto "amor" em sua totalidade e nos fez crescer pensando que o amor certo é aquele que te completa, que terminas suas frases, que assiste a mesma série em looping com você. Mas não é (só) assim. Amor, às vezes, é menos bonito do que a gente pensa, mais difícil do que a gente lembra e muito mais fácil de ser identificado do que a gente imagina. E é por isso que Love é linda: porque antes de mostrar o amor romântico (e comercial) entre duas pessoas que se amam mais do que qualquer outra coisa, mostra as complexidades de cada ser, que apesar das dificuldades, também podem se amar.

Love apresenta os relacionamentos como são de verdade: cheios de falhas, de expectativas dos dos lados; de duas pessoas colocando suas frustrações na outra e não sabendo lidar com o peso de suas ações. De duas pessoas tentando fazer algo dar certo independente de suas diferenças.

Fala sobre incompatibilidade, mas fala de tentar, também. Uma, duas, três vezes, se necessário.

Cada pessoa é um mundo e carrega consigo preferências, medos, vícios, desejos, ambições e individualidades. Algumas pessoas são pólvora e quando encontram a primeira faísca, explodem em segundos. O amor transforma, mas nem sempre é em algo cor-de-rosa e brilhante, não. A indústria nos fez acreditar que o amor cura tudo o que for ruim e potencializa tudo o que for bom, mas Love veio para nos lembrar de que não é bem assim. Love mostra que amor é mesmo gigante, mas que às vezes a gente não sabe lidar com ele - e isso é tão real que incomoda.

Incomoda porque é uma série que não nos tira da nossa realidade e nos coloca em um romance bonitinho em que um cara passa 9 temporadas com um guarda-chuva amarelo colecionando sinais para encontrar uma mulher que tem as mesmas piras loucas que ele. Love mostra essa montanha-russa e inconstância que também fazem parte do amor de verdade. Não dá folga. Machuca porque nos leva de volta a situações que, com a substituição da trilha sonora e do cenário, já foram vivenciadas por mim, por você e pra quem mais ler esse texto.

Ora mais doce, ora mais amargo e constantemente agridoce, Love, não por acaso, retrata o amor.

De um jeito deliciosamente doloroso.

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