A Síndrome da Corda

Entrei, recentemente, em um grupo muito fofinho só de mulheres. Apesar de não ser o foco, às vezes, trocamos uma ideia sobre relacionamentos e, no meio dessas conversas, falamos sobre pé na bunda (uma coisa que todo mundo tem ao menos uma experiência para compartilhar). Lendo os relatos, vi um denominador comum na maioria dos casos: a fatídica situação do cara (ou mina) que some depois de apresentar um grande envolvimento. Apelidei isso de síndrome da corda. Se você não se identificou ainda, lá vai!


Vocês começaram a conversar. Se viram, o encontro foi ótimo e as conversas triplicaram. Era manhã, tarde e noite. Mensagem de bom dia, bom almoço e dorme bem. "Se cuida", "Você tá linda nessa foto", "Quero te ver logo", já eram frases comuns. Vocês começaram a fazer planos curtos: "Você precisa provar o meu ensopado! Farei, por esses dias", "Você viu que está tendo exposição do Picasso? Tô bem afim de ir, vamos?", "Esse novo filme do Almodóvar parece bom, que tal irmos no meio da semana?" E, com tudo isso, você se sente à vontade de fazer o que? Se entregar, gostar, fazer planos, também - e tá tudo bem, né? A pessoa te da todos os subsídios para viabilizar um envolvimento, afinal, tá sendo mútuo. Why not, não é mesmo?

Porém, a pessoa que sofre da síndrome da corda, do nada, cansa - e toda a corda que ela te deu é enrolada no seu pescoço. Ela simplesmente some e você fica com mil interrogações na cara. O inevitável acontece: você começa a se perguntar o que fez de errado. Spoiler: nada. É sério, o problema não é você. Sim, eu juro!

Você espera as coisas voltarem ao normal. "Às vezes é uma semana difícil no trabalho", "Talvez o cachorro tenha ficado doente", "E se o celular dele/dela quebrou?", você arruma desculpas. Mais um spoiler: não é nada justificável. Até porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que quem quer, da jeito (e não tem TCC, tese de doutorado ou distância que impeça).

Quando cansa, você pergunta e manda aquela mensagem gelada, depois de três dias e meio de silêncio. "E aí?". A resposta pode variar na linguagem, mas é sempre a mesma. "Estava me envolvendo e não posso/quero". E então, toda a corda que foi dada, tal qual uma serpente em sua presa, te esmaga, enforca. Sem metáforas: machuca, pra dizer o mínimo.

Eu consigo enxergar sentido e honestidade em várias outras síndromes, como a Síndrome da Segunda Pessoa (não é você, sou eu), a Síndrome da Amy Winehouse (I know I'm no Good), a Síndrome de Ross Geller (Quando te conhecem no meio de um tempo com o/a namorado/a) e até mesmo a Síndrome da Valesca Popozuda ("Agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar, daquele jeito"), mas essa não dá pra defender, não.

É cruel demais manter uma pessoa atras de você para apenas alimentar seu ego ou preencher três horas vagas do dia. É muita falta de honestidade não ser sincero ao perceber o envolvimento do outro quando não está na mesma frequência. Ninguém é obrigado (ou capaz) de ter reciprocidade quando o assunto é sentir, afinal, tai uma coisa que a gente não tem controle algum (quem dera!). Mas todo mundo consegue falar e ser sincero - e "medo de machucar a pessoa" não é uma desculpa, afinal, ela sairá machucada de qualquer forma.

Ninguém merece se culpar por falta de caráter de outra pessoa, por isso, pessoinhas, livrem-se da síndrome da corda. Tá tudo bem não gostar, ser um idiota, não. Mesmo que a mensagem de "acho que estamos em vibes distintas" não seja bem aceita pela outra pessoa, depois que a dor do chute passar, ela será grata por você ter optado pela verdade. E você se sentirá bem também, no final das contas. E se tudo isso que eu falei no maior tom "amiga dando conselho" não serviu, lembrem-se que carma is a bitch.

E o mundo gira e vacilão roda, rapaz.

6 comentários

  1. Aquele texto que cai no momento EXATO da vida

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  2. HAhaha, passei bem por isso. Foi uma merda... fiquei eras tentando entender o motivo e foi horrível.

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  3. Passei por isso esse domingo, é uma merda ficar tentando entender os motivos da pessoa, principalmente porque fico me culpando pela situação toda :((

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  4. O mundo gira, e vacilão cai. Uma das melhores frases.
    Lendo o texto, notei semelhança com alguns dos meus relacionamentos. É gostoso escutar (ler, né) que a culpa não é sua.
    O último carinha que ~me envolvi~ tinha essa síndrome. Mais: marcou comigo e no dia sumiu, após uns dias trocando mensagens bem ~envolventes~. E juro, que fiquei uns belos dias procurando o que eu tinha feito, e bem... Eu não tinha feito nada hahah.
    ps: leio seu post faz uns tempos. Adoro seu jeitinho de escrever <3

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  5. Nem sei o que dizer, apenas sentir, eu TENHO a síndrome da corda :(
    Sim eu sei é mega egoísta, mas eu sempre caio na real e digo a verdade pra pessoa depois. Eu tô melhorando JURO! Amei teu blog, teus textos, tudo! <3 Com certeza vai pros favoritos!

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  6. Nossa, Michele. Esse texto seu. Que tapa na cara.
    Deveria estar circulando para que todas as pessoas pudessem ler e aprender a não enrolar os outros. É o mínimo. Mexer com sentimento alheio é algo sério.
    Não é qualquer vacilão que pode se comprometer com isso.

    Obrigada por ter expressado em palavras uma situação que acabei de viver. Eu não conseguiria botar em palavras tão bem quanto você!

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