12/04/16

"Você não pensa em voltar, não?"

Foi essa a mensagem que minha mãe me mandou no comecinho da noite, logo após me perguntar o que eu faria no jantar.

"Você não pensa em voltar, não?"

Respirei fundo.

Pensei em responder que a cada vez que os vejo meu coração se enche de alegria e, no momento em que pego a rodovia, a euforia dá lugar à saudade. 

Pensei em contar que a grana tá super curta e que fazer compra toda semana é um saco. Pensei até em aproveitar e dizer para ela o quanto a admirava por sempre ter feito parecer tão fácil. Por sempre chegar do trabalho e ainda fazer alguma coisa para eu comer quando chegasse da faculdade.

Pensei em confessar que sinto falta de algumas paixões que deixei por lá.


Pensei em contar que ainda tenho a mesma mania de procurar rostos conhecidos nessa cidade imensa e que ainda me surpreendo quando constato que, não, eu não conheço aquela pessoa de lugar nenhum. 

Pensei em dizer que eu oculto todas as publicações de eventos legais que vão acontecer por lá porque imagino como seria estar nele com o pessoal de sempre e meu peito se enche de nostalgia. 

Pensei em contar que sinto falta das conversas de horas com um dos meus melhores amigos. Quis dizer que sentia falta das nossas análises sobre a vida, sobre nossos relacionamentos e até nossas críticas ácidas que não são mais a mesma coisa - mesmo com áudios de cinco minutos no WhatsApp. 

Pensei em confessar que eu morro de saudades dos nossos sábados assistindo RuPaul's Drag Race. Quase contei que eu descobri quem ganha a quinta temporada e que não era para quem torcíamos.

Pensei em dizer o quanto meu coração aperta quando vejo o Tutu fazendo alguma coisa diferente, pelo snapchat da minha irmã. Até ponderei contar que morro de saudades da minha irmã e olha que nunca fomos exemplos no quesito demonstração de afeto. 

Quis dizer que eu sentia muitas, muitas, muitas saudades.
Dela, da minha irmã, do meu pai, do Arthur.

Até mesmo da sensação de estagnação, do comodismo, da minha preocupação ser apenas "onde ir no sábado".

Respirei fundo.

"Não, mãe. Não está sendo como férias de verão, mas não penso em voltar", brinquei, usando meu humor como escudo. 

Pude imaginar com perfeição uma respirada funda e um olhar de julgamento do outro lado. 

"Certeza?"

Eu tenho poucas certezas na minha vida: a de que Beatles é a melhor banda que já existiu, que não existe nada mais ruim na culinária do que azeitona, que Skol Beats dá uma ressaca monstruosa e que não, eu não queria voltar.

"Certeza, mãe."

Pelo menos por agora.


Da série: textos que escrevo no momento em que estou sentindo tudo isso, mas publico muito tempo depois. 

____________________________________________________________________________________________________________________

Curtiu o post? Então mostre seu amor e compartilhe! ♥
Twitter // Facebook // Instagram // Grupo do Blog // Snap: mihbroccoli

5 comentários:

  1. Sou de cidade grande. Belo Horizonte é grande, não como São Paulo, mas é. Nunca morei longe daqui e nem longe da minha família. Estava pensando esses dias, porém, em como vou achar difícil ter que lidar com compras, com lavar minhas roupas sempre, cuidar da casa... Mães (e pais que são "donos de casa") são heroínas. Achei bem legal você ter dito sobre como elas - a sua e a minha - fazem parecer que tudo é tão fácil.
    Espero que você fique em Sampa pelo tenho que for necessário, que lhe agregue. E que sejam sempre doces as oportunidades de voltar pra casa, passar um tempinho com a família e os amigos.

    yellowevershine.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sua linda, obrigada ♥
      Suas palavras me fizeram muito feliz, de verdade :)

      Excluir
  2. Mais um texto incrível. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Faz poucos dias que cogitei em uma visita aos meus pais, a possibilidade de voltar a morar com eles. Me emocionei ao ver em seus olhos um brilho ilustre de felicidade que dizia claramente:
    - Já estava na hora de você parar de brincar de casinha e voltar pra nós, minha caçula. Fiquei extremamente feliz em eles estarem de braços abertos pra mim, mas ao chegar em casa me dei conta de que mesmo eu sendo pra sempre a caçula deles, eu cresci. Peguei o telefone e logo disse a minha mãe: - Preciso continuar com isso.

    ResponderExcluir

MY OTHER BAG IS CHANEL © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.