01/03/16

Sobre ser tia

Quarta-feira. 06/05/15

Cheguei estressada do trabalho, tinha brigado com meu namorado e era o dia que antecedia a chegada do Arthur. Não sei se foi o misto de emoções diferentes (esgotamento, raiva, ansiedade) ou se realmente não aguentei a sobrecarga. Não lembro nem mesmo o motivo, mas tive uma briga feia com a minha irmã, que se preparava para trazer o que viria a ser o amor da minha vida. 

Sai um pouco de casa, com os ânimos a flor da pele. Eu nunca soube lidar com sentimentos demais. Eu só sabia chorar e nem sabia o porquê. Era pelo meu trabalho que estava me sobrecarregando? Era o meu namoro que estava dando seus últimos suspiros e eu sabia disso? Era a chegada do meu sobrinho? Eu não sabia, eu só sentia. E pensei que fosse surtar.

Meia noite. 07/05/15

Cheguei em casa após o meu surto e encontrei a minha irmã sentada no sofá. Eu nunca me senti tão mal na vida. Ela estava prestes a ter um filho e eu é quem estava surtando. Capricorniana fria como é, nunca fomos de nos abraçar, trocar elogios e palavras bonitas. Nosso relacionamento nunca foi dos mais amorosos, mas ali, há algumas horas da chegada dele, nos abraçamos e choramos igual duas loucas. Tudo era pequeno demais perto do que estava para acontecer. 

Quinta-feira. 07/05/15 

A cesárea estava marcada para às 13h. Eram 9h30 da manhã e eu não conseguia me concentrar. 2015 não foi o ápice da minha ansiedade generalizada, mas naquele dia eu tive um gostinho que saboreei diariamente no ano anterior. Mãos suadas, taquicardia, falta de ar. Não conseguia pensar, quem dirá produzir um release sobre um evento de genética avícola no Chile. Minha chefe percebeu e falou: "Vai pro hospital, você não vai conseguir fazer nada, hoje!". Era verdade. Liguei para o meu pai, ele me buscou e lá fomos. 

Minhas pernas não paravam quietas e ali fomos informados de que a cesárea atrasaria. Fomos encontrar a minha irmã e, já com as roupas e propés, ela estava sorridente e serena. Eu não acreditava. "Como assim você está calma?????", eu indaguei. Meus pais e eu não conseguíamos esconder nosso nervosismo, mas ela não. Uma calma que eu me pergunto se, um dia, eu consegui sentir na vida. "Tô bem!", ela afirmava quando eu insistentemente perguntava. 

Quinta-feira. 14h10 

Estávamos feito leões enjaulados na maternidade. Andávamos de um lado para o outro e eu não conseguia responder a nenhuma mensagem de amigos, que sabiam do meu nível de estresse e ansiedade, me perguntando se estava tudo bem, se tinha alguma novidade. Até que o médico chegou.

"É um meninão!", disse sorrindo. Como em um filme, abracei a minha mãe e comecei a chorar. Eu nem liguei se estava fazendo cena. O Tutu já estava ali e, em alguns minutos, iríamos vê-lo. Eu nunca vou conseguir descrever a sensação de leveza que eu senti naquele momento. Se você me pedir para escolher, hoje, o momento mais importante da minha vida, foi esse. 

Quinta-feira. 14h30

Vimos uma enfermeira empurrando um carrinho com uma espécie de aquário e o coração acelerou. Era ele. "Vou parar só um pouquinho, porque não posso!", ela disse quando estava chegando perto. E aí nos grudamos para ver o nosso bebê, o nosso Tutu. Eu, que sempre disse que recém-nascido tinha cara de joelho, conseguia ver cada traço da minha irmã naquele rostinho. Conseguia enxergar os olhinhos verdes, conseguia dizer que a boca era da Daniele e consegui reparar no quanto ele era parecido com nós duas, quando nascemos. Tirei o máximo de fotos que consegui e, quando a enfermeira tirou ele da gente, fiquei olhando aquilo por horas. Eu era tia. 

-

Desde então, eu não sou só irmã. Não sou só filha mais velha. Eu sou tia. E ser tia é engraçado, porque você consegue amar um ser, com todas as suas forças, mesmo que ele não tenha vindo de você. Você se preocupa, você se lembra dele em vários momentos do seu dia. Você sonha com o próximo encontro e com o próximo apertar de coxas gordas e gostosas. Ser tia é dar risada quando recebe um snap dele jogando o seu DVD dos Beatles no chão e é não se importar de vê-lo brincando com seus livros. É vibrar com um engatinhar e é torcer para presenciar o primeiro passo.



Antes mesmo dele nascer eu já o amava tanto que eu não conseguia explicar. Não conseguia lidar. Hoje, esse amor é ainda maior. Cresce com um "bobô", ou com uma foto recebida logo de manhã. Ser tia é aprender que não tem como um dia ser ruim quando ele começa com um sorriso de seis dentes. 

Hoje, eu acompanho a formação da minha irmã na melhor mãe do mundo; vejo a minha mãe com um brilho nos olhos que ela não tinha antes. Meu pai, então, nunca foi tão feliz na vida. Eu estou aqui, morrendo de saudade e com a certeza de que nunca amei tanto uma pessoa, ou que nunca quis tanto fazer tudo por alguém. Hoje, eu sou a tia de longe, mas que tem muito mais de 600km de amor por essa pelota. 

Se tem uma coisa que aprendi com ser tia, é que você ama muito. Ama tanto que quer expressar de alguma forma - e percebe que é tudo tão grande, que é impossível. 

Hoje a saudade bateu tão forte, que virou texto.


_____________________________________________________________________________________________________________________

Curtiu o post? Então mostre seu amor e compartilhe! ♥
Twitter // Facebook // Instagram // Grupo do Blog // Snap: mihbroccoli

7 comentários:

  1. Que texto lindo, não haveria palavras mais lindas para descrever o quão maravilhoso é o amor de titia!

    ResponderExcluir
  2. virou textão amor que transbordou aqui ♥

    ResponderExcluir
  3. Que coisa mais linda Mi! Eu ainda não sou tia, tenho duas irmãs mais novas, então eu sei que um dia ainda sentirei isso. É bom saber que é tão bom assim :)

    ResponderExcluir
  4. Quando é nosso não tem cara de joelho, né? Não tenho irmãos (então, nunca serei oficialmente tia), mas minhas primas nasceram quando eu já tinha mais de 18 anos, então na prática sou tia. E tive a mesma reação que você: aquele rostinho de bebê, que já tinha visto (e achado sem graça) em tantas crianças não era igual aos outros, era tão cheio de detalhes nossos, tanta personalidade! E dali não teve mais volta.

    Sua mãe tem esse brilho no olho porque é vó, ela recebeu o pó mágico que apenas as avós tem acesso, deve estar cozinhando melhor também e não estranhe se, do nada, ela começar a costurar (já vi acontecer).

    O Tutu é lindo (e tá cda dia mais lindo porque eu fui fuças no Instagram), que ele cresça cada vez mais fofo (e poupe uns dvds dos Beatles).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. AH, então você é quase tia mesmo! <3 e é uma sensação deliciosa, né? E siiiim, o Tutu tá mais lindo a cada dia, não sei lidar! haha

      Obrigada pelo comentário lindo, Nicas! :)

      Excluir

MY OTHER BAG IS CHANEL © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.