28/05/15

Carta para não ler


Eu sempre achei meio idiota escrever sobre (e para) alguém que nunca vai ler, mas, sabe como é, sou adepta das palavras para tudo, em momentos bons ou ruins. Às vezes o sentimento precisa sair de alguma forma e sempre vejo nas palavras essa saída. Eu sei que você não vai ler, mas com certeza vai receber, em algum lugar, o sentimento que estou colocando nesse texto. 

Sempre fomos muito grudados, não é mesmo? Quando criança, a minha alegria era sair da escolinha, passar na KiDoce, comprar o meu sagrado Kinder Ovo e ir na em sua casa comer Danoninho de aviãozinho. Nunca vou me esquecer do dia em que arrebentei a boca no balanço e você, cheio de graça, me disse que, naquele dia, o “aeroporto estava quebrado”. Nunca vou me esquecer do pequeno Buda que me dava 0,25 todos os dias, desde que eu esfregasse sua barriga; e também sempre lembrarei das miniestátuas que colecionávamos juntos. Lembrarei, ainda, de quando eu comemorava cada centímetro que crescia para ficar “mais perto da altura do bolso” e da minha surpresa quando o passei. Passei tanto que poderia apoiar minha cabeça acima da sua. “Puxou pra sua mãe, hein!”, dizia.

Também nunca vou me esquecer de todos os aniversários em que me acordou, às 7 da manhã, com um bolo enorme e um abraço tão apertado que, um dia, precisei pedir para que fosse menos forte. Hoje vou sentir falta desses abraços doloridos. Vou lembrar da parreira de uva, de quando quebrei a taça de cristal e o máximo que recebi em reprovação foi uma cara feia. Vou lembrar da bicicletinha, das rugas, das flores, dos livros e dos discos que, curiosa como sempre fui, fuçava mesmo sem permissão.

Eu nunca vou esquecer do avô maravilhoso. Das vezes em que compartilhou lembranças dolorosas comigo e quando pude segurar sua mão em momentos difíceis. Nunca vou esquecer do meu “veinho”. Ainda é estranho, mas só consigo desejar que seu caminho seja tranquilo, como sua partida também foi. Vou sempre me lembrar de você sorrindo. Como sempre vi.

4 comentários:

  1. Michele, sei muito bem como é doloroso esse momento, perdi meus dois avôs e meu pai. Então te desejo mais que tudo, força pra manter a cabeça erguida hoje e sempre, e claro, tentar se apega aos bons momentos, como vi que você já está fazendo. Fique bem! ♥

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  2. Ai Mih, tô mandando muito amor e energia positiva pra te ajudar a passar por essa fase. <3

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  3. Ai guria, muita força, viu? Me arrepiei com seu texto. Meu avô tá com uma demência bem parecida com Alzheimer e todo minuto longe de Porto Alegre fico tensa, pensando que podia estar aproveitando com ele :( Fica bem!

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  4. Que carta linda, tenho certeza que todo amor não só de vc, mas de todos que leram chegara a ele em forma de amor e paz, tenha certeza que um dia vcs estarão juntos novamente.
    Bjs

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