17/01/15

Eu li: A Redoma de Vidro


"É um livro espetacular, mas cuidado com o momento em que você estiver lendo. Se estiver passando por um momento de introspecção, um pouco de tristeza que seja, passe longe". Foi assim que fui apresentada a esse livro que começou a pipocar em instagrams de pessoas com um gosto literário próximo ao meu. O livro de capa cor-de-rosa e de nome delicado me chamou a atenção e quando se tornou impossível encontrar uma cópia traduzida dele, a curiosidade se instalou e eu não sosseguei até ter um exemplar para mim. Ganhei de presente de uma colega do trabalho e, desde que ganhei, não o soltei. Demorei exatamente um mês para ler, mas não por ser uma leitura difícil - muito pelo contrário - é porque eu sabia que a partida seria dolorosa, afinal, o livro parecia estar sendo escrito por mim. 

O livro foi escrito pela autora Sylvia Plath em 1963 e sob o pseudônimo de Victoria Lucas. A história é sobre uma menina que vivia em uma cidade pequena e pobre e que, graças a uma bolsa de estudos, começa a fazer um estágio em uma grande revista em Nova York. O estágio é de um mês e, nesse um mês, ela tem uma vida que nunca imaginou que pudesse ter: com homens interessantes que trabalhavam na ONU, com almoços em restaurantes caríssimos, com hotéis luxuosos, roupas maravilhosas e contato com os maiores escritores da época. Ela vivia em um sonho, mas sabia que tinha hora pra acabar. 

Quando acaba, Esther enlouquece. É importante ressaltar que, na época em que o livro foi escrito, a depressão não era tão comum e ainda era um problema desconhecido, ou seja, visto - muitas vezes - de uma forma muito mais grave e "feia" do que é. Claro que sabemos da grandiosidade desse tipo de problema, mas a falta de informações acerca do assunto não só resultava em tratamos ineficazes como, muitas vezes, na "não-cura" e no suicídio. Enfim, claramente Esther entra em depressão e você se vê dentro dos questionamentos sobre vida, morte e etc. O mais interessante é que a escrita da Plath é tão sedutora que você está lendo sobre uma tentativa de suicídio com a mesma leveza com que alguém te descreve uma caminhada no parque. É sensacional. 

Eu não vou falar muito sobre a história porque pode ser que eu dê spoilers - e eu não quero estragar essa leitura para ninguém - mas quero ressaltar que esse é um livro que deve ser lido com cuidado. Tenho três livros que coloco nessa categoria: O Apanhador no Campo de Centeio, As Vantagens de Ser Invisível e, agora, A Redoma de Vidro. Esses três livros me sugaram e eu me vi muito neles. Além da partida ter sido muito ruim - sabe ressaca literária? Quando você não consegue se desligar da obra? Quando as palavras da personagem ficam se repetindo em sua cabeça? Pois bem! - eu me vi muito na Esther e fiquei um tanto quanto assustada com as similaridades até em seus demônios. (Também) estou passando por um momento de introspecção e etc e esse livro deixou tudo muito intenso. Eu lia e as palavras me arrepiavam: os questionamentos sobre carreira, vida, família, amores de Esther eram/são (!!!) os mesmos que os meus, o conto da figueira que ela cita no livro é no que baseia minha vida por esses dias e, por ser um livro que me causou grande identificação, acabou ficando quase que inteiro grifado. "Eu sou, eu sou, eu sou", como Esther repetia algumas vezes no livro. E eu repito por Esther. 

"Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era a EG, a fantástica editora, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar.

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés"

Se você quer um livro de escrita maravilhosa, delicadeza e densidade na medida certa, eu indico. Mas leia quando seu coração estiver levinho. 

Curtiu o post? Então mostre seu amor e compartilhe! ♥
Acompanhe o MOBIC (e a Mih) nas redes-sociais!

10 comentários:

  1. A Sylvia é intensa! A primeira vez que eu li tinha 15 ou 16 anos. Hoje seria o tipo de livro que passaria longe. Mas eu gosto muito da escrita dela. Mesmo na intensidade depressiva ela descreve as emoções de uma maneira que atravessa quem lê. Mesmo que a gente não esteja numa fase para baixo, não tem como não analisar a vida, as atitudes e os aparentes confortos. É um livro que mexeu demais comigo também. Tanto que acabei lendo a compilação de diários dela logo em seguida. Os textos do diário são variantes e tem muitas poéticas sobre o cotidiano, caso você fique interessada :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu estou muitíssimo interessada nos diários, mas confesso que estou com um pouco de medo do quanto posso me ver envolvida em seus textos. Mas o livro é sensacional mesmo, que escrita!

      Excluir
  2. Ai...

    Li esse livro há algum tempo atrás e fico feliz que alguém também tenha sentido o mesmo que eu senti ao ler. Essa m*rda dessa figueira me marcou DE VERDADE e eu sentia que ela era só minha como se fosse uma cruz que eu tivesse que carregar.

    A Sylvia era uma pessoa muito intensa, ela não cabia dentro dela mesma. Tirou a própria vida de uma forma que eu não posso descrever aqui mas talvez você já saiba.

    É realmente um livro lindo, mas que não, não pode ser lido em épocas difíceis.

    Te recomendo também um livro chamado Flores para Algernon. Ele infelizmente ainda não tem tradução em português, apenas Espanhol e Inglês, mas se você puder leia. É um livro que vai apertar seu coração de uma forma linda...

    Beijo :*
    Uai Babi

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que você resumiu bem o que eu estou sentindo! Se eu tivesse sido avisada antes que esse livro não deve ser lido em momentos duros... hahaha

      Sugestão mais que anotada, Babi! Já vi que temos um gosto literário parecido e, sendo assim, sua dica é valiosa! :)

      Excluir
  3. Essa ressaca que você cita aconteceu quando vi o filme As Vantagens de Ser Invisível e até hoje ainda me sinto apegada de certa forma.. imagina então se ler o livro mesmo rs. Mas eu já tinha me interessado por este livro antes, agora então me deu mais vontade ainda de comprar, mesmo não estando tão em paz assim. Super beijo!

    Mutações Faíscantes da Porto

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Uma dica, Carol: fique em paz antes de ler. Sério! hahaha

      Excluir
  4. Só de ler sua resenha, eu já fiquei meio perplexa! :O Mas adorei o conteúdo! As vantagens de ser invisível me deixou completamente devastada, e depois que vi o filme, foi outro chute no estômago. Mas é lindo, e acho que a beleza de algumas coisas tá mesmo é na dor. Fiquei curiosa pra ler o livro!

    Beijos,

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, sim! As Vantagens é um livro que te "quebra", mas ao mesmo tempo, é tão incrível... Eu tenho um caso de amor com livros assim, mesmo que depois eu fique um pouco destruída hahaah

      Excluir
  5. Mih, admito que fiquei curiosa a respeito desse livro.
    Só fiquei meio receosa que você o comparou com The Catcher in the Rye, uma das minhas maiores decepções literárias UEHUHEUHHUHUEHUHEUHE.
    Mas se eu conseguir, super encaixarei na minha lista esse ano.

    Beijocas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. COMO ASSIM VOCÊ NÃO GOSTOU DO APANHADOR MEU DEUS DO CÉU TO CHOCADA NÃO CONSIGO NEM PONTUAR ESSE COMENTÁRIO

      (mas leia esse, Patty. é maravilhoso de verdade!)

      Excluir

MY OTHER BAG IS CHANEL © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.