26/09/14

Blogagem coletiva: das cartas que nunca te escrevi


Quando vi esse tema no Rotaroots fiquei meio indecisa sobre participar ou não. Aqui eu já fiz carta para mim mesma, carta para meu pai... Não me restavam muitas opções, já que para minha mãe eu sempre falo o que preciso e para namorado eu escrevo a mão. Ia deixar passar quando vi uma matéria da Atrevida em algum blog onde as blogueiras tinham que escrever cartas aos seus "bullies". E como não querer entrar nessa justamente em um período onde estamos aprendendo a nos amar mais e lutar contra o Slut Shaming? Então, essa minha carta é para os meninos da quinta série. 

"Caros colegas da quinta série C: 

Eu gostaria de escrever umas coisas à vocês, mas antes, gostaria que vocês parassem de fazer esses desenhos sobre mim na lousa. Eu sei, parece divertido. As pessoas dão risada e é esse o propósito da coisa, não é mesmo? Pois então. É justamente sobre este assunto: eu não consigo rir disso. E na verdade, por vocês, eu aprendi a detestar o meu sorriso. E se duvidam, vai mais uma: isso vai durar uns bons anos. Vocês provavelmente não sabem, mas estou passando por um período bem complicado. Sabe como é, coisas externas acontecem e o meu corpo sente. Eu não como direito e, é claro, fico magrinha. Eu tento focar nas coisas da sala: desenho muito, leio bastante e agora estou dedicada fazendo meu próprio almanaque do Harry Potter. Colecionei várias informações e recortes. Eu sei que vocês acham isso tudo irrelevante e, talvez, force ainda mais as piadinhas. Sei também que é claro que na sala algumas garotas já estão em um processo chamado "puberdade" e eu ainda tenho roupas e aspectos infantis. Mas sabe... Apesar de não fazer muita questão de brincar com vocês no intervalo e preferir ficar lendo meus livros ou revistas, eu ainda tento ser criança. Eu não quero beijar o menino da outra sala e nem me sentir mal por ainda usar meias coloridas e saias plissadas. Eu só quero comprar 1 real de bala Freegells e rir com as figurinhas do Frajolla. 

Eu também gostaria que vocês soubessem que eu não gosto quando me dão apelidos. Isso é bem chato, sabiam? Parece exagero, mas vou falar a verdade: dói. Eu choro na sala, quando chego na minha casa e, esses dias, até na rua, enquanto caminhava da escola para a casa do meu avô. O que acho mais chato é que eu poderia dar apelidos muito piores à vocês, mas eu nunca disse o fiz porque eu sempre achei isso tudo muito triste. Eu não queria proporcionar o sentimento ruim que vocês me davam. Nós vamos aprender isso daqui alguns anos - na verdade, vocês eu não sei, mas eu vou - que isso se chama empatia. Vocês não sabem, mas por causa de todas essas brincadeiras, eu não gosto de sair de casa e minha mãe já cansou de perguntar os motivos. Eu odeio ir à escola e eu não vejo a hora de crescer para que tudo isso pare, afinal, eu ainda vou ficar grande e bonita como as meninas mais velhas e tudo isso vai parar. 

Meu pai fala que tudo isso é brincadeira e que vocês vão parar quando eu parar de me importar. Ele fala que quanto mais eu choro, mais engraçado fica. Mas eu queria que vocês entendessem que não é assim. Que seria legal que parassem quando eu pedisse. E mais: gostaria que entendessem que isso não é brincadeira. Brincadeira faz todas as pessoas sorrirem. Não parece, mas isso é mais sério do que parece e eu espero que, no futuro, vocês tenham consciência disso. Eu me pergunto, também, o que foi que eu fiz para vocês. Todos os dias antes de dormir eu pergunto. Será que eu roubei seu lugar na fila da cantina? Eu pisei no seu pé enquanto entrávamos na sala? Derrubei guaraná no seu uniforme? Se for qualquer coisa assim, eu já te peço desculpas. Realmente, não foi a minha intenção. 

Pode não parecer, mas eu vou lembrar de todas os apelidos, desenhos, musiquinhas e etc por um bom tempo. Até mesmo quando eu já for alta, adulta e com namorado de verdade. Eu gostaria que vocês aprendessem que fazer o colega feliz é muito mais legal do que fazer piadas relacionadas a coisas que eu nem sabia que eram ruins ou feias. E que antes de conhecer vocês, eu adorava. 

Um abraço e um guaraná de saquinho,

Michele."

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