09/04/13

Crítica: Veludo Azul

Sandy: “O mundo é estranho.”


Um passeio pelas ruas do subúrbio de Lumberton, criado por David Lynch, seria um encontro com casas limpas, caracterizadas por uma arquitetura harmoniosa e por cercas enfeitadas com roseiras. A atmosfera inspira a segurança de uma cidade idealizada na publicidade dos anos 50.

Por isso, quando Jeffrey (Kyle MacLachlan, ator que em 1984 havia trabalhado com o cineasta em “Duna” e em 1990 viria a protagonizar “Twin Peaks”) descobre uma orelha humana em um terreno baldio em sua vizinhança, o jovem fica intrigado - e o público que assiste “Veludo Azul” (1986) pela primeira vez tem a mesma reação. O órgão cortado parece destoar com seus arredores inocentes.



Inocência? Falsa impressão! No simbolismo de Lynch, a entrada que um dia foi um canal auditivo é um portal que carrega seu herói e seus espectadores ao submundo que a paisagem agradável da cidade oculta, um território brutal dominado por um bandido perturbador e depravado.

Porém quando resolve fazer uma investigação paralela à da polícia para o mistério da orelha, Jeffrey não está ciente disso. Ele é apenas um universitário, um bom rapaz talvez com um gosto imprudente para aventura. Além disso, ele atrai e é atraído para investigação pela filha do detetive, a jovem e angelical Sandy (Laura Dern, que também repetiria a parceria com o diretor em “Coração Selvagem”, de 1990, e “Império dos Sonhos”, de 2006).


O chiaroscuro, o mistério, a música dos anos 50, o charme do herói e a violência que se segue tornam o longa-metragem em um clássico do cinema neo noir. Em seu rastreamento do dono da orelha decepada, Jeffrey esbarra até mesmo numa figura de femme fatale. Uma alternância entre vulnerabilidade e perigo, a cantora Dorothy (Isabella Rossellini) é uma dama da noite que veste veludo azul e entoa em um bar a canção “Blue Velvet” do título.

É através dela que o herói encontra tal senhor do submundo, Frank Booth (interpretado por Dennis Hopper, memorável desde sua primeira cena). Dorothy é refém do vilão, seu filho e marido foram presos por sua gangue e sobrevivem enquanto ela lhe oferece favores sexuais sadomasoquistas. Todos os atores principais estão bem ajustados em seus papéis, mas nenhum supera o intérprete do antagonista.


Poucas personificações de vilões do cinema impressionam como a que Hopper faz desse criminoso de boca suja e fixação por veludo azul, um homem que sente tanto prazer em inalar gás, quanto em agredir, sequestrar, e estuprar “qualquer coisa que se mova”. Ao assistir seus ataques, até o público se sente uma testemunha impotente ou um cúmplice sujo. Tudo indica que Jeffrey, enquanto é irreparavelmente envolvido no caso, tem a mesma sensação.

Surreal como outros trabalhos de Lynch, como “Cidade dos sonhos” (2001) e o seriado “Twin Peaks”, só não é insuportável por ser atenuado pela bela fotografia de tons azuis e pela sensação de esperança. O mundo de “Veludo Azul” é estranho e violento. Nele a perversidade é transmitida como uma doença sexual. No entanto, ainda existem figuras doces como Sandy e suas profecias sobre pássaros e amor que criam expectativas de um final feliz.


Com o avanço da história, sabemos que Jeffrey corre risco de se degenerar num segundo Frank ou de sofrer alguma brutalidade, mas ao mesmo tempo outras cenas dão esperanças de que ele é capaz de salvar Dorothy, derrotar Frank e seus comparsas, como um bom herói de filme noir.

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