22/03/13

Crítica: Donnie Darko

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Donnie: Imaginário?


Em suas crises de sonambulismo, Donnie (Jake Gyllenhaal) costuma acordar em lugares inusitados, longe do conforto de sua casa, localizada no subúrbio de uma cidade de Virginia, nos Estados Unidos. O adolescente ainda interage com Frank, um homem fantasiado de coelho macabro, que profetiza a data do final do mundo para 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos após seu primeiro encontro.


Essas peculiaridades que o cercam seriam traços de um distúrbio mental, como esquizofrenia, ou a manifestações de um mistério maior sobre o universo em que habita? A pergunta é um dos inúmeros questionamentos que transitam pelo cérebro do espectador que assiste pela primeira “Donnie Darko”, longa indie dirigido e escrito por Richard Kelly em 2001.



Com alguns minutos de progresso do filme, as dúvidas inevitavelmente dividem espaço na mente do público e do protagonista com as teorias sobre a real natureza dos acontecimentos da história, o que é intensificado a partir do momento em que uma das escapadas noturnas do protagonista o salvam de ser esmagado por uma turbina de avião, objeto que cai precisamente sobre sua cama.

A partir de então, paralelamente a lidar com o problema de sua antissociabilidade e suposta insanidade, Donnie passa investigar a possibilidade de viajar no tempo por meio de livros como “Uma Breve História do Tempo”, de Stephen Hawking e o fictício "A Filosofia da Viagem no Tempo" de Roberta Sparrow. Seu dia-a-dia é ocupado ainda com a prática de delitos sob a orientação de Frank e um romance com Gretchen (Jena Malone), uma das poucas pessoas por quem Donnie sente uma forte empatia.


Gravado (coincidentemente ou não) em 28 dias, com o orçamento de 4,5 milhões de dólares, “Donnie Darko” é desde seu lançamento considerado um cult - merecidamente. A razão disso talvez seja a o teor de seu roteiro, uma mistura bem balanceada entre fantasia e drama suburbano, tudo sob a ótica de jovem interessante de se assistir. Um de seus atrativos em potencial pode ser ainda o mergulho do longa metragem na realidade dos anos 80, evidente na sua ambientação e na trilha sonora (e suas canções, entre elas "The Killing Moon" de Echo & The Bunnymen - e que nome de banda apropriado para o filme -, "Head over Heels" de Tears for Fears, "Love Will Tear Us Apart" de Joy Division, se costuram muito bem com as cenas).

Contudo, o que alimenta os admiradores mais fieis do filme é a forma como sua trama complexa os impulsionam a assisti-lo múltiplas vezes, até ter segurança sobre suas próprias interpretações dos mistérios da história.


Além disso, o baixo orçamento de “Donnie Darko” não lhe deu um ar de pobreza. Pelo contrário, seus diálogos são ágeis e marcantes e seus efeitos especiais não agridem os olhos. Belas filmagens em plano sequência, como o passeio panorâmico pela escola frequentada pelo protagonista são agradáveis de se ver. Junto com os minutos finais ao som da versão de Gary Jules “Mad World”, a corrida inicial de Donnie para sua casa, esses momentos são apresentados com quê de poesia.

A atuação de Gyllenhaal, então um iniciante, coroa as qualidades do filme. Veteranos, como Drew Barrymore e Patrick Swayze estão bem nos papeis respectivos de professora injustiçada por pais conservadores e de orador motivacional, porém ambos são ofuscados pelo ator principal.


Anti-heróis adolescentes como Donnie, uma espécie de jovens derivada de Holden Caulfield (protagonista de “O Apanhador no Campo de Centeios) são personagens arriscados. Se sua antissociabilidade, inteligência acima da média e estranheza não forem bem dosadas, alienam o público, podem o tornar petulante. Com Donnie, pelas ótimas falas do roteiro de Kelly, e pela interpretação competente de Gyllenhaal, isso não acontece.

Ele pode parecer perturbado, chega a cometer atos questionáveis, mas isso não impede a simpatia dos espectadores por ele, afinal, seus medos, sua inteligência e sua sensibilidade são bem transmitidos, e isso o torna real. E obras da ficção onde os personagens não são muito mais fortes que a trama, ou o desenvolvimento dos mistérios não limitam o desenvolvimento do protagonista, são as melhores formas de entretenimento.


[Existe uma Versão do Diretor deste filme, com o acréscimo de 20 minutos, com ampliação da participação de alguns personagens coadjuvantes e mais esclarecimentos dos mistérios do filme. Vale a pena assistir.]



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