05/02/13

Top Cinéfilo: 6 Clássicos Sem Oscar de Melhor Filme

Como alguns de vocês, tenho sim momentos hipsters de o-reconhecimento-da-Academia-não-é-sinônimo-de-bom-filme. Mas uma confissãozinha: todo ano eu assisto a entrega do Oscar (fundo sonoro: música incidental de “O Jovem Frankenstein”, conhecida também como toque do Chipmunk Dramático). Justificativas razoáveis: aprecio as apresentações musicais (e, neste ano, o elenco de “Os Miseráveis” vai encenar um número!!!), faço figa na torcida para que alguém encarne o Michael Moore e esculhambe a política de alguma potência em seu discurso de agradecimento, quero ver os bons e maus exemplos de alta costura se arrastarem pelo tapete vermelho e gosto de dormir tarde. Uma justificativa nobre: como vou poder resmungar, “Malditos, esnobaram o melhor indicado outra vez”, com os olhos espremidos de revolta, se não testemunhar o sorrisinho amarelo de decepção na cara de tal ator ou diretor, quando o vencedor é anunciado?

Sim, porque aquele homenzinho dourado levemente mais expressivo que o Slender Man às vezes dá mancadas, e muitas. E não são só os filmes estrangeiros, obscuros, indies e politicamente ousados são vitimados por sua frieza metálica, alguns clássicos também foram ignorados em edições passadas. Por isso, preparei um Top Cinéfilo com seis filmes icônicos esnobados pela Oscar. Espero que seja útil quando nossos concorrentes favoritos forem derrotados na cerimônia de final de fevereiro e quisermos argumentar com colegas o quanto a Academia é insignificante para comprovar a relevância dos filmes para a posteridade.

6. Pulp Fiction (1994)

Em 1994, “Pulp Fiction” tinha transpirava um vapor revolucionário com seu (ótimo) roteiro não linear dividido em episódios. Seus personagens, na maioria, criminosos, dialogavam como pessoas comuns sobre lanches ou preferências por Elvis ou Beatles, além de declamar versículos adaptados da Bíblia, enquanto disparam balas. Como uma boa obra pós-moderna, o filme era um pastiche, cheio referências cinematográficas, sem se obrigar a ser didático. Digam se o humor negro de suas cenas não era delicioso? Dicionários de inglês deveriam listar “Pulp Fiction” como exemplo no verbete “cool”.


Era uma prova de que o cinema pode ter bons roteiros, pode ser incômodo, e entreter ao mesmo tempo. Eu não queria declarar meu amor a “Pulp Fiction” outra vez no Top Cinéfilo, mas não tem como, o Oscar não me deu outra escolha ao dar preferência para “Forest Gump” um título mais convencional, mais melodramático, e nem de longe equivalente em qualidade cinematográfica ao neo-noir de Tarantino. Corra, Forrest, corra, Jules está no seu encalço citando Ezequiel 25:17.


5. Se7en – Os Sete Pecados Capitais (1995)

De sua abertura até o seu final inquietante, “Se7en” demonstra sinais de excelência. Entre os ingredientes que o tornaram um dos thrillers modernos mais apreciados estão: a fotografia noir; roteiro sombrio de Andrew Kevin Walker; a dinâmica entre o duo de investigadores de personalidades opostas; a forma como a consequência e não o ato de violência é explicitada (como se observássemos todos os assassinatos sob a ótica de uma investigação); as excelentes atuações de Morgan Freeman, Brad Pitt e Kevin Spacey; a complexidade de seu vilão, um serial-killer anônimo, literato, que se auto proclama justiceiro e artista.


Vamos ser sinceros, só pela concretização dos pecados capitais personificados nas vítimas o filme de David Fincher deixa uma impressão duradoura na memória de seus espectadores. Porém não na dos membros da Academia, pois os amnésicos só se lembraram do suspense quando foram listar os indicados para Melhor Edição. Lembrem-se, em 1995, até “Babe, o Porquinho Atrapalhado” foi indicado a Melhor Filme, mas “Se7en” não. Ah, digo mais, nem o ganhador, “Coração Valente” é superior a “Se7en”. John Doe, onde você estava quando esses pecados foram cometidos?


4. 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968)

Às vezes me pergunto se não ter imaginação é um pré requisito para ser membro da Academia. O motivo dessa suspeita é a falta de respeito que aqueles senhores têm pelos filmes de ficção científica e fantasia. A trilogia “O Senhor dos Anéis” levou algumas surras até sua terceira parte ganhar reconhecimento em forma de estatuetas (“Chicago” é melhor que “As Duas Torres”?). Por mais que “Guerra nas Estrelas” seja um divisor de águas sci-fi, a saga de space-opera conquistou apenas prêmios técnicos (ah, tão típico). Em 1980, para se ter uma ideia, “O Império Contra-Ataca” nem indicado foi – e nesse ano “Gente Como a Gente” foi o vencedor (alguém se lembra desse filme quando vai fazer a lista de 50 títulos mais importantes do século 20?).


No entanto, o maior crime contra a ficção científica foi “2001, Uma Odisseia no Espaço” não ter recebido uma indicação a Melhor Filme em 1968. Um comentário mais pessoal: acredito que este filme, - junto com outros como “Lunar” (2009) – dá uma bofetada na cara dos preconceituosos que gostam de dizer o gênero não pode render obras cerebrais. Quem não termina a história espacial de Kubrick filosofando sobre a vida no universo? Como um cinéfilo que se preze pode não ficar boquiaberto com sua cinematografia hipnótica, o que é válido tanto para as sequências da origem da humanidade, quanto para os embates entre Dave (Keir Dullea) e o computador HAL 9000, sem falar do surrealismo das últimas cenas? Quantas vezes a canção de Richard Strauss “Also sprach Zarathustra” não foi reutilizada na cultura popular em referência a “2001”? Sejam francos, senhoras e senhores da Academia, “Oliver!” é mais memorável?

3. Cidadão Kane (1941)

Primeiro longa de Oscar Welles, a biografia fictícia de Charles Foster Kane, um magnata da mídia inspirado em William Randolph Hearst, marcou a história do cinema com seu conjunto de inovações. Na cinematografia, fazia uso do deep focus e do ângulo baixo. Com isso fugiu dos padrões da fotografia comum na época. Em termos de roteiro, o uso intenso de flashbacks e de um narrador não confiável revolucionou a forma de contar histórias em obras de celuloide.


Nesse clássico, espectador se rói para descobrir quem é “Rosebud”, enquanto conhece a trajetória de ascensão do protagonista megalomaníaco. Talvez a Academia não tenha gostado da revelação final, ou não tenha digerido bem as inovações que iriam influenciar todo o cinema e a teledramaturgia daí adiante. Quem sabe ainda não tinham uma birra de Welles por terem caído no seu hoax, a narração radiofônica realista da invasão marciana fictícia, tirada de “A Guerra dos Mundos”? Não deixa de ser uma hipótese. Isso poderia explicar o fato de o drama “Como Era Verde o Meu Vale” ter levado a estatueta de Melhor Filme em 1941 e “Kane” não.


2. Taxi Driver (1976)

Ao assistir “Taxi Driver”, você mergulha na mentalidade do taxista insone Travis Bickle (Robert De Niro, impecável), um dos sociopatas mais interessantes do cinema. Esse trabalhador noturno é uma bomba relógio, uma espécie de espelho da psicologia norte-americana pós-Vietnã. Porém tanto a viagem pelas ruas de Nova Iorque e sua suposta sujeira moral quanto a análise da paranoia gritante do anti-herói ainda são atuais – em outras palavras, ainda afetam o espectador do século 21. Há poucas dúvidas de que psicodrama de cinematografia crua seja a obra-prima de Martin Scorsese.


Contudo, no ringue contra “Rocky – O Lutador”, “Taxi Driver” foi nocauteado. Essa, a entrega do Oscar de 1976 foi uma situação em que preferir ou preterir deve ter sido complicado. Por mais que entre as histórias de Balboa e Bickle, a segunda tenha me marcado mais, admito que falar em injustiça é questão de gosto quando se compara os dois indicados daquele ano, ambos muito bons. Mas nem por isso “Taxi Driver” deixa de ser um clássico não-oscarizado e por isso integra nosso Top Cinéfilo de hoje.

1. Um Corpo Que Cai (1958)

O título de Mestre do Suspense não é gratuito, ele foi conquistado por mérito. A maior parte da filmografia de Hitchcock é icônica e imitada. Contudo, se essa fosse uma lista de diretores mais injustiçados pelo Oscar, provavelmente o Hitchcock a encabeçaria. Nunca levou uma estatueta do Oscar na categoria de Melhor Diretor (teve um Irving G. Thalberg Memorial Award por obra conjunta, o que é quase dizer, “você se tornou um cineasta cultuado, então desculpe por nossas mancadas”). Uma pena! Você pode não ter visto todos seus filmes, mas se fizermos um joguinho de mencionar o título de alguns, certamente uma cena deles vai se formar na sua cabeça. Quer testar? “Psicose”. “Os Pássaros”. “Janela Indiscreta”. “Intriga Internacional”. Funcionou, né?


E ainda que “Rebecca, a mulher inesquecível” (ai, os subtítulos brasileiros) tenha rendido um Oscar na categoria, outros de seus melhores trabalhos nem indicação a Melhor Filme receberam como gesto de “Joia!”. É o caso de “Um Corpo Que Cai”, talvez sua obra-prima. Do que é constituído esse filme? Ótimas atuações de James Stewart e Kim Novak ao expor a relação obsessiva de seus personagens, trama inteligente, uma reviravolta de dar nó no cérebro, cenas carregadas de tensão (a sequência de abertura que conta a origem da acrofobia do protagonista Fergusson, e a sequência na torre do convento são exemplos), bela trilha sonora, direção esmerada. Ou seja, o thriller tem todos os elementos que constituem um ótimo filme. E só concorreu nas categorias de Melhor Edição de Som e Melhor Direção de Arte. “Deus tenha piedade!”, murmuraria a freira ao ler a lista de indicados a Melhor Filme na 31ª Edição, perceber a ausência de “Um Corpo que Cai” e ver “Gigi” como vencedor.

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Menções honrosas (os leitores concordam que daria para fazer um belo clipe com as cenas desses clássicos rejeitados pelo Oscar?): King Kong (1931), A Grande Ilusão (1937), O Crepúsculo dos Deuses (1950), Um Bonde Chamado Desejo (1951), Cantando na Chuva (1952), 12 Homens e Uma Sentença (1957), Quanto Mais Quente Melhor (1959), Bonequinha de Luxo (1961), A Primeira Noite de Um Homem (1967), O Bebê de Rosemary (1968), Laranja Mecânica (1971), O Exorcista (1973), Tubarão (1975), Apocalypse Now (1979), Touro Indomável (1980), O Homem Elefante (1980), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), ET – O Extraterrestre (1982), Blade Runner (1982), Faça a Coisa Certa (1989), Os Bons Companheiros (1990), Fargo (1996), O Resgate do Soldado Ryan (1998), Amnésia (2000), Cidade de Deus (2002), O Segredo de Brokeback Mountain (2005).

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