13/02/13

Crítica: Meu Vizinho Totoro

Mei: Totoro? Esse é seu nome? Totoro?



No ocidente, os nomes de Hayao Miyazaki ou do Studio Ghibli são rapidamente associados à animação “A Viagem de Chihiro”. Entre 2002 e 2003, o desenho faturou um Urso de Ouro e um Oscar, entre outros prêmios, e projetou internacionalmente o diretor. Por outro lado, no Japão, seu país de criação, é a imagem do personagem título de “Meu Vizinho Totoro” que se acende na memória visual do público quando Ghibli ou Miyazaki, seu roteirista e diretor, são mencionados. Tanto que a simpática criatura é a atual mascote oficial do estúdio.


Lançado em 1988, o longa animado conta a história de Totoro, um espírito benéfico da floresta, e de sua relação com duas crianças. Comparado com os filmes mais conhecidos do estúdio, o desenho é mais alegre. Não há conflitos violentos, tampouco um antagonista, o suspense quando surge, é leve, o que pode incomodar um espectador mais acostumado com ação frenética e pirotecnia digital em animações. A história, contudo, não está isenta de momentos de apertar o coração.


Para começar, as duas irmãs Satsuki e Mei mudam-se com o pai, um professor universitário, para uma velha casa campestre para estarem mais próximas do hospital onde sua mãe está internada. A situação reflete a biografia do próprio criador: por nove anos de sua infância, ele viu sua mãe ser hospitalizada por sofrer de tuberculose.


O que temporariamente distrai as garotas da doença da mãe, são as criaturas fantásticas que encontram no lugar: os susuwatari, espíritos de fuligem que habitam cômodos de sua casa; o Nekobus, um felino gigante em formato de ônibus; além de uma família de Totoros de diferentes tamanhos. Habitantes de uma gigantesca árvore de cânfora, esses últimos são entes de aparência híbrida coelho, guaxinim e coruja, responsáveis por espalhar sementes. O maior entre eles poderia ser assustador devido sua estatura, contudo seus movimentos preguiçosos, seu olhar manso e sua maciez de sua pelagem transparecem sua docilidade.


Assim como em “Princesa Mononoke” (1998), outra criação de Miyazaki, a floresta dos arredores é parte essencial do filme, porém não como uma força vingativa e sim como algo acolhedor. As criaturas criam com as garotas uma ligação amistosa, servem de conforto quando a saúde de sua mãe deteriora. Como no outro filme, em “Meu Vizinho Totoro” há um subtexto ecológico, mas a alma das criaturas aqui tem uma natureza delicada, em contraste com a revolta beligerante dos deuses da floresta de “Princesa Mononoke”.

Aos olhos de um ocidental, o imaginário do “Meu Vizinho Totoro” remete às criações de Lewis Carroll. No primeiro encontro de Mei com o pequeno Totoro, ela o segue até cair em um buraco como faz Alice com o Coelho Branco. As feições do Nekobus poderiam mesmo ser uma referência ao gato de Cheshire, tão semelhantes são seus olhares e sorrisos. Porém não há vestígio algum de ocidentalização no tom da animação.


A essência nipônica é até perceptível na instrumentação das composições de Joe Hisaishi, canções ecoam sons natureza numa musicalidade onírica. Porém é no visual que a nacionalidade do desenho ganha maior expressão. Desenvolvidos sobre a direção de arte Kazuo Oga, os cenários do desenho é fiel à zona rural japonesa e aos bosques da região de Kanto. Como é típico das animações do Studio Ghibli, os fundos são pinturas comparáveis a fotografias tamanha riqueza de detalhes. Quase sentimos a textura da madeira descascada das paredes da casa ou da palha do tatame. Imaginamos o cheiro da folhagem translúcida e do musgo que cobre estatuetas de templos.

Outro ponto agradável do filme é a verossimilhança da personalidade das protagonistas humanas. Tanto Mei quanto Satsuki não atuam como caricaturas de crianças, ao contrário, representam com naturalidade os japoneses de sua faixa etária tanto na sua atitude como na movimentação de seus corpos desenhados. As interações entre as duas, seus pais e as pessoas da vizinhança, são convincentes e rendem momentos ternos.


Ainda que na década de 80 não tenha sido um sucesso de público, “Meu Vizinho Totoro” é hoje um filme cultuado pelos japoneses, e fora do país por animadores e aficionados por desenhos (por exemplo, John Lasseter, da Pixar, e o criador de “Hora de Aventura”, Pendleton Ward afirmam citam a animação como influência para seus trabalhos). O célebre cineasta japonês Akira Kurosawa, lembrado por obras como “Os Sete Samurais”, tinha o desenho como uma de suas produções cinematográficas favoritas.

No entanto, é pouco visto no Ocidente fora deste círculo de fãs de desenhos. É uma pena pensar que tantas crianças no mundo tenham crescido sem nunca ver esse filme imaginativo, sensível e visualmente rico. Ou seja, sem relacionar grandes árvores com possíveis habitantes amáveis, o ruído do vento com Totoro e quartos escuros de casas fechadas com espíritos de fuligem.

Um comentário:

  1. Eu AMO A Viagem de Chihiro e Meu Vizinho Totoro! Estava dando uma passada no blog e não poderia deixar de ler e comentar essa crítica, muito boa por sinal! (:

    http://gostodascoisaspoeticas.blogspot.com.br/

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