21/02/13

Crítica: Amor

Anne: Às vezes, você é um monstro, mas um monstro muito gentil.


Conversas cultas e idas a concertos musicais de ex-alunos ocupam as horas de recreação de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), um casal francês de octogenários. Tanto nas referências ao passado em suas confissões mútuas como na decoração de seu apartamento transparecem anos de construção de uma vida rica tanto no sentido amoroso como material.



Porém desde a primeira sequência de “Amor” (2012), o cineasta austríaco Michael Haneke anuncia que aquele cenário de conforto será subvertido em palco da deterioração humana. Professores de música aposentados, Georges e Anne não permitem que a idade avançada embarace sua independência. Esse quadro é alterado quando ela sofre um derrame que resulta na debilitação progressiva, porém acelerada, de suas capacidades físicas. Por se recusar a confiar em terceiros após experiências negativas (e pela relutância de Anne em ser hospitalizada), o marido assume todo o peso dos cuidados da esposa.


Que o longa metragem cause uma comoção emocional é inegável. Contudo, as cenas surgem sem enfeites sentimentalistas. Mais do que uma exposição da nobre dedicação de um cônjuge ao outro, “Amor” é um retrato cru da degradação inerente à velhice e de nossa impotência diante dela. O filme traz ainda em meio a isso um exame não romanceado sobre um amor e uma reflexão intimista sobre a morte. Há ternura no envolvimento entre o casal de protagonistas, porém a impressão mais poderosa é causada pela franqueza brutal como é mostrada a patologia de Anne e de seus reflexos na psicologia de Georges. A existência dele gira em torno dela, porém isso não impede que ele, um personagem humano e também um idoso, perca a paciência em alguns momentos.


Com a filmagem quase estática e praticamente limitada aos cômodos do apartamento do casal, além da ausência de trilha sonora, a sensação que se tem é de que se invade a intimidade de um velho casal. O naturalismo do filme é acentuado pelas interpretações de Trintignant e Riva. Ambos são rostos clássicos do cinema europeu, transformados em ícones ainda na juventude; ele em títulos como “O Conformista”, ela em “Hiroshima, meu amor”. Aos 82 e 85 anos respectivamente, o ator e a atriz não têm medo de doar a própria força e as próprias fragilidades aos personagens ao exteriorizar sua angústia de forma realista.


Riva manifesta em cada músculo os problemas de saúde de sua personagem, enquanto que seus olhos expressam a tristeza de uma pessoa inteligente que se percebe cada vez mais dependente e cada vez mais segura da irreversibilidade de seu estado. Do outro lado, Trintignant é o retrato de um marido que se esforça para ser o sustentáculo da mulher que ama, mas que se frustra dolorosamente com o agravamento do quadro de saúde dela e com as próprias limitações.


Se em “A Fita Branca” (2009) Haneke desnuda a origem da maldade na infância e assim perturba seu público, em “Amor”, o diretor e roteirista austríaco atira nos olhos do espectador mais jovem cenas de um futuro que ele talvez preferisse não confrontar. E como na juventude usamos entretenimentos como cinema para nos desviarmos da previsão da idade, a experiência de se deparar com uma obra com efeito inverso pode ser incômoda.


Um comentário:

  1. Rafa, adorei a sua crítica... tão inteligente, que quase não entendi...hahahaha E Mi, adorei o seu blog. Vi que ganhou um concurso da Kipling!!! Parabéns, flor. Continue com toda essa criatividade. E precisando de ajuda, pode contar comigo. Um beijo.

    ResponderExcluir

MY OTHER BAG IS CHANEL © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.