28/01/13

Crítica: Os Miseráveis

“Você consegue ouvir o canto do povo?”

Início do século 19. O povo francês assistiu à monarquia ser abolida pela Revolução Francesa e, após seu fim, ser restaurada. Porém se as manobras política e as guilhotinas produziram mudanças na forma de governo, as condições de vida dos pobres continuam as mesmas. Casos extremos envolvem a degradação pela fome, prostituição e crime.


Em “Os Miseráveis”, drama musical dirigido por Tom Hooper (oscarizado por “O Discurso do Rei”), a tragédia social de personagens desse grupo é descortinada aos olhos do público, mas não sem antes receber a roupagem de superprodução (com direito a recursos de computação gráfica). E aqui eles exteriorizam seu sofrimento e revolta não apenas com choro ou levante com barricadas, todos se tornam tenores, sopranos e barítonos para verbalizar seu drama com o canto.


Por isso, quem tem intenção de assistí-lo deve ter consciência de que estará prestes a ter contato com um filme monumental, emotivo e teatral. As duas primeiras características já estavam presentes no romance homônimo de 1400 páginas, escrito por Victor Hugo, um dos pilares do Romantismo na literatura francesa. Já a terceira é uma herança de Alain Boublil e Jean-Marc Nate e Claude-Michel Schönberg, responsáveis pelo musical encenado desde 1985, do qual o longa metragem é uma adaptação bastante fiel. Ou seja, se você não tiver intolerância a diálogos cantados dramaticamente em versos, ou não for apaixonado pelo minimalismo, sente-se e aprecie.


Embora a veia da trama se ramifique em várias subtramas, seu coração é a redenção de Jean Valjean (Hugh Jackman) e sua perseguição pelo implacável Javert (Russel Crowe). Condenado por vinte anos pelo roubo de um pão, o protagonista conquista a liberdade condicional e consegue reconstruir a vida com a ajuda de um bispo (Colm Wilkson, intérprete de Valjean nos palcos londrinhos em 1985), sob a condição se tornar um homem virtuoso. Com o tempo, do maltrapilho prisioneiro 24601, Valjean se transfigura, sob uma diferente identidade, em um respeitoso dono de fábrica e prefeito. Por sua vez, de guarda de prisão Javert é promovido para membro da força policial. No entanto, a cada encontro a dinâmica do duo é a mesma: um jogo de gato e rato.


Ao longo de 158 minutos, o progresso da história tece um panorama do povo francês do século 19, conforme outros personagens cruzam o caminho do protagonista. Entre eles estão a operária desempregada Fantine (Anne Hatheway), que no desespero para sustentar a filha recorre à prostituição; a própria criança, Cosette (Isabelle Allen), uma garota explorada pelo casal de golpistas Thérnadier (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), e mais tarde adotada por Valjean; Marius Pontmercy (Eddie Redmayne), rapaz rico que abandona o conforto ao lado do avô para se unir a um grupo de estudantes revolucionários e se torna tanto interesse romântico de Cosette adolescente (Amanda Seyfried) como o alvo do amor não correspondido de Éponine (Samantha Barks, já familiar com a personagem que interpretou em uma produção londrina), essa também uma jovem empobrecida.


Poucas liberdades artísticas marcam a diferença entre o roteiro do filme e do musical. Para dar fluência à história, algumas canções tiveram trechos cortados ou aparecem em ordem invertida. Além disso, o roteiro de William Nicholson abre espaço para o acréscimo de "Suddenly", uma canção original composta para o longa. Enquanto na maioria dos musicais cinematográficos, as canções são previamente gravadas em estúdio e dubladas pelo elenco, Hooper optou por fazer com que os atores cantassem no set, durante as filmagens. Como resultado a transmissão de emoção é intensificada.


Por falar em exposição de sentimentos, a qualidade da atuação do elenco é mista. Jackman, Hatheway e Barks se entregam a seus papéis, dão graça a eles. Os três atores submergem, vemos (e ouvimos, pois as vozes dos três, as mais fortes do elenco, parecem alavancar todo o sentimento de seu interior) somente seus personagens em suas tragédias. Ou seja, resta um homem em constante conflito, porém nobre o suficiente para se sacrificar por terceiros, uma mulher doce e triste, mas desesperada cujos sonhos foram mortos, e uma jovem que realmente padece por amor e pela decadência familiar.


O talento de Redmayne potencializa o carisma de Marius enquanto ele interpreta com eficiência musical números marcantes, principalmente nos momentos em que seu lado revolucionário se sobressai. Já o trabalho vocal de Crowe e Seyfried é insatisfatório, ele ainda equilibra a presença de seu Javert com uma boa atuação, ela, porém, é ofuscada por todo o resto do elenco principal. E os Thérnardiers, apesar do potencial para serem inesquecíveis, se tornam apenas mais um par de personagens esquisitos na filmografia de Cohen e Bonham Carter, que dão a impressão de não estarem se esforçando muito ao encarnar os vilões farsescos.


Como seu elenco, “Os Miseráveis” em si não é perfeito, ainda que seja espetacular. Contudo, suas deficiências - excesso de coincidências na história, um romance central morno, por exemplo, - são na maior parte das vezes heranças do musical original. Por outro lado, a adaptação para o cinema fortalece as qualidades da obra, como é perceptível nos monólogos de Valjean, nas cenas épicas das barricadas, no desfecho da revolta e nos passeios pelos cenários de Paris, muito bem replicados.


Grandioso, ainda que pesado, o filme é capaz deixar uma impressão forte na memória do espectador. Uma vez que a finale é cantada, o efeito de "Look Down", "I Dreamed a Dream", "On My Own", "One Day More", "Do You Hear the People Sing?" e "A Little Fall of Rain" demora para se extinguir.

4 comentários:

  1. Tô amando de paixão seu blog! Tá maravilhoso.
    Vou voltar sempre, se der, passa lá no meu?!
    Um beijo.
    http://www.reinventingstars.blogspot.com.br
    http://www.facebook.com/reinventingstars

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  2. Espero que o filme venha para araçatuba. Porque amei demais!

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  3. Crítica primorosa, Rafa! Parabéns!

    Maravilhosamente escrita. Análise excelente.

    Parabéns pelo blog, Michele: amei.

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  4. Ágatha, muito obrigada pela visita e pelo comentário, viu? Fico muito contente em saber que você tenha gostado da crítica e do blog, sério mesmo.

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