16/01/13

Crítica: Django Livre‏

Schultz: Está gostando do trabalho de caçador de recompensas? 

Django: Matar brancos e ser pago pra isso, como não gostar?


Após o festival de matança de nazistas em “Bastardos Inglórios” (2009), o cineasta norte-americano Quentin Tarantino resolveu encaixar seu projeto seguinte nos moldes do que chamou de southern (ou, sulista, se formos traduzir). No seu filme estariam presentes as questões conflituosas do sul dos Estados Unidos pré-Guerra Civil, sobretudo as monstruosidades do racismo. Mas, ei, é de Tarantino que estamos falando!


Ao invés do passo arrastado de um melodrama histórico à la “E o Vento Levou...”, seu mais recente filme “Django Livre” segue um ritmo inspirado nos Bang Bang à italiana dos anos 60 e 70, porém turbinado com a assinatura do diretor: seus personagens se movimentam em meio a balas cruzadas, mergulham numa torrente de palavrões temperada com diálogos prazerosos de se memorizar, enquanto espirros de sangue tingem plantações de algodão, saloons e casarões de fazendas.

Dois anos antes da Guerra de Secessão, Django (Jamie Foxx) integra uma fila de negros acorrentados transportada por um par de irmãos escravagistas. O grupo é abordado pelo alemão, King Schultz (Christopher Waltz), interessado em comprar Django, munido tanto de dinheiro quanto de armas. Sua escolha pelo escravo se deve a fato de ele ser capaz de reconhecer os irmãos Brittle, um trio de criminosos. Schultz é na verdade um caçador de recompensas, e é para acompanhá-lo nessa tarefa que recruta Django em troca de liberdade. Apesar do oportunismo que cerca sua profissão, o alemão despreza a imoralidade da escravidão.


Assim a dupla se torna candidata a um posto no top de 10 mais descolados bromances do cinema, enquanto massacram senhores de escravos procurados. As sequências de “Django Livre” são um banho de sangue, o que inclui desde episódios de violência capazes de entreter até cenas de uma brutalidade nauseante. O espectador pode se deliciar com uma cena de tiroteio coreografado em mansão capaz de superar o embate da Noiva contra os 88 Loucos de “Kill Bill: Volume 1” (2003), e em outra parte assiste um escravo ser estraçalhado vivo por cães, passagem tão incômoda quanto a tortura ao som de “Stuck in the Middle with You” de “Cães de Aluguel” (1992).

Contudo, o filme não se limita a uma carnificina movida à vingança histórica. Os olhos do público são brindados por belas filmagens de paisagens dos estados de Califórnia, Wyoming e Louisiana, numa combinação impecável da fotografia dirigida por Robert Richardson e da edição de Fred Raskin.

Além disso, na medula da trama está a mais forte história de amor da filmografia de Tarantino. O motor de Django é sua missão de reencontrar sua esposa Broomhilda (Kerry Washington), suas lembranças passeiam por flashbacks poéticos e tropeçam na violência com que foram separados. Por esse objetivo seu caminho e o de Schultz cruza por Candyland, mistura de plantation de milho e clube de propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Para potencializar as dificuldades de Django e Schultz, o novo dono de Broomhilda é um fazendeiro mimado e cruel, obcecado por duelos entre “Mandigos”. Nelas, lutas dignas do coliseu romano, os oponentes, sempre escravos, se golpeiam até a morte com as mãos ou martelos.


As atuações do elenco principal merecem comentários à parte. O Django de Foxx não é só um herói cool de luvas de couro e boa pontaria, o ator transmite em seu olhar a dose de melancolia e rancor correta para um recém liberto. Tanto DiCaprio como Waltz (embora esse simplesmente reprise boa parte do maneirismo de seu Coronel Landa de “Bastardos”) estão confortáveis em papéis semelhantes ao alternar carisma e sadismo, ainda que o primeiro seja vilão e o segundo o sidekick interessante - um expresse o racismo por lições de frenologia e o outro seja o estrangeiro que se opõe à mentalidade discriminatória local. Washington transparece as emoções de sua Broomhilda sem utilizar muitas palavras. A atriz recorre apenas à força de suas expressões para emitir o medo e o trauma pela exploração que domina sua personagem.


Contudo a interpretação de destaque é a de Samuel L. Jackson. Lembrado pelo o gangster verborrágico Jules de “Pulp Fiction - Tempo de Violência” (1994), o ator se transforma para viver Stephen, o velho servente de Candie, uma versão vil e racista de um Pai Tomás. Ora encarnando um escravo idoso, manco, rabugento e submisso, ora um vilão ardiloso, o intérprete choca e amedronta.


Composto por ótimas atuações e por uma direção e cinematografia mais maduros e épicos que em seus primeiros filmes, “Django Livre” é um forte concorrente para “Pulp Fiction” como a obra prima da filmografia de Tarantino.

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