14/01/13

Crítica: As Aventuras de Pi

Pi: Animais têm alma... Eu enxergo isso em seus olhos.



Animais são personagens comuns na ficção infantil. No entanto, é difícil encontrá-los como protagonistas de livros maduros e, mais raramente ainda, em filmes adultos. Adaptação do romance canadense “A Vida de Pi” escrito por Yann Martel, “As Aventuras de Pi” nada contra essa corrente.

Pela presença de bichos e caráter reflexivo, o filme dirigido por Ang Lee poderia ser comparado a uma fábula. Vítima de um naufrágio, Pi (nas interpretações comoventes de Irrfan Khan, quando adulto, e Suraj Sharma, enquanto adolescente), um jovem indiano espiritual ao ponto de seguir em três religiões diferentes, se encontra sozinho em um bote salva-vidas com uma zebra, um orangotango, uma hiena e o tigre de bengala, Richard Parker. Antes disso, seu contato com essa fauna era mediado pelas grades das jaulas do zoológico de sua família localizado em Pondicherry, na Índia Francesa.




No entanto, ao contrário das figuras que as fábulas de Esopo e La Fontaine, ou, mais apropriadamente, os contos indianos da “Panchatantra”, esses animais não são seres antropomórficos. Reproduzidos, na maioria das cenas, por um trabalho de computação gráfica realista, as criaturas têm suas ações guiadas primariamente pela animalidade, pelo instinto de sobrevivência. Têm alma selvagem de animais, o que os torna mais interessantes de observar.


Uma trama aventuresca preenchida por pensamentos filosóficos, o longa metragem utiliza animais, humanos e acontecimentos para discorrer sobre a fé. Fiel ao teor do romance, o filme apresenta situações pitorescas, e por serem abertas à interpretação do público, são recepção é semelhante ao que acontece quando se assiste “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”. A maneira como se absorve os acontecimentos que cercam Pi reflete a relação do espectador com a própria credulidade.


Devido à sua essência teológica, seu cenário predominantemente aquático e seu retrato da vida animal, o livro lançado em 2001 não tem conteúdo de fácil tradução para o cinema. Tanto que desde 2003, quando a Fox adquiriu os direitos de adaptar o romance, o projeto passou por M. Night Shyamalan, Alfonso Cuarón, e Jean-Pierre Jeunet até chegar às mãos de Lee.

E, como se trata de uma adaptação, foi por um acaso feliz que os outros cineastas deixaram direção. Embora tenham bons títulos em suas filmografias, os três imprimem com muita força seu estilo nas produções que dirigem. Lee, como é possível perceber com “Razão e Sensibilidade” (1995), “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005) e agora com “Pi”, tende a respeitar a personalidade do material que adapta.


Não que “As Aventuras de Pi” seja morno estilisticamente, muito pelo contrário, Lee é um esteta, porém cada um de seus filme apresenta uma estética própria, não o padrão uníssono de um diretor. Tanto suas sequências térreas como as aquáticas, são essencialmente artísticas. Os efeitos visuais realizados pelo estúdio Rhythm and Hues (responsável pelos efeitos de “As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa") casam-se com direção de fotografia de Claudio Miranda (conhecido pelo trabalho em “O Curioso Caso de Benjamin Button”) para criar cenas deslumbrantes. As tempestades marinhas, a ilha infestada de suricatos, os saltos dos animais marítimos para a superfície, o nado de águas-vivas luminosas e até a visão submarina do cargueiro naufragado, tudo é esplendoroso.

O coração da aventura é a convivência entre Pi e Richard Parker, ou seja, entre um humano civilizado e o bicho mais majestoso e ameaçador do zoológico de sua família. Para que ambos cheguem vivos à terra firme, um é obrigado a coexistir com o outro. Mais do que domar o tigre, o garoto se esforça para ganhar seu respeito, ajudá-lo a subsistir, entrar em simbiose com ele. Contudo, em momento algum, o felino se torna seu animal de estimação. São dois sobreviventes, a princípio tensos pela presença um do outro, e mais tarde, presas de uma relação de dependência mútua.



A ligação dos dois é tão forte, e há tanto realismo na aparência física do Richard Parker, que é espantoso que Suraj Sharma não tenha contracenado com nenhum animal verdadeiro nas filmagens sobre o bote (na gravação de outras cenas, mais seguras, foram alternados quatro espécimes diferentes). É difícil diferenciar o tigre real do gráfico criado digitalmente.

Tragédia e fome desconstroem e reconstroem Pi. Sua aventura, sua mentalidade, veiculadas por meio de imagens bem trabalhadas, transportam o espectador para uma visão fantástica do Oceano Índico, com sua beleza e seus perigos, além de o induzirem a tomar uma posição sobre a própria fé. Ao final do filme, é impossível não questionar a si mesmo e quem está do seu lado: “E você, no que acredita?”



 Rafaela Tavares é estudante de jornalismo, completamente apaixonada por música,   literatura, seriados norte-americano e principalmente cinema. Além de amar escrever,  tem uma quedinha por ilustração e, de vez em quando, desenha por diversão.

Um comentário:

MY OTHER BAG IS CHANEL © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.