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05/02/2019

Uma vez, enquanto estava divulgando meu livro, eu participei de um programa na CBN que chamava "CBN Gerações". Eu vou colocar o link ali embaixo se vocês prometerem não rir porque eu estava extremamente nervosa, em um nível que minha voz estava trêmula e eu falei das minhas amigas gays como "as pessoas homossexuais", de tão dura que eu estava. Prometem? Então vamos lá. Em um dos momentos dessa longa conversa de 20 minutos, o meu companheiro de microfone, que já escreveu diversos livros sobre amor e relacionamentos, disse que, hoje em dia, é muito mais fácil trair porque você tem muito mais acesso às pessoas. Você que me lê provavelmente vai discordar*, ou atribuir a frase dita à idade do interlocutor, mas muitas pessoas concordaram e concordam e, muito provavelmente, enxergam o controle sobre o outro como prova de amor. Mesmo que elas não tenham se dado conta disso.
*essa afirmação pode ser discutida de diferentes formas. 
Sim, temos muito mais facilidade em conhecer pessoas, mas conhecer 
pessoas não significa envolvimento amoroso em 100% dos casos. 
Tudo depende das intenções dos envolvidos e dos 
acordos dos relacionamentos. 

Sabendo disso, não é lá uma grande surpresa que as pessoas passaram a romantizar o Joe, da série You. Desde que vi a sinopse da nova aposta da Netflix, já fiquei aflita porque retratava da forma mais direta possível um relacionamento abusivo. É tão explícito que a série chega a ser cômica de tão caricato que o Joe é. Mas, sem surpresa, algumas pessoas passaram a romantizá-lo - de um jeito tão louco que até o próprio ator, o Penn Bagley, precisou intervir e falar que, não, o Joe não é um cara legal. Se você não assistiu You, eu vou resumir pra você com alguns spoilers que não prejudicarão a trama: o Joe é extremamente controlador. Ele quer saber onde a Beck está o tempo todo, opina sobre suas amizades, quer ver o celular dela, lê as mensagens que ela troca com amigas, segue ela nos lugares, enfim. Quando ela se mostra resistente a esse comportamento, ele o pede como prova de amor.
"Se você me ama, você me deixa ver seu celular".
Essa era a frase que Joe, o psicopata, usava para pedir o celular da namorada. Você achou ela familiar? Pois é, eu também.

Hoje, coincidentemente, assisti a um filme francês chamado "Nada a Esconder". Ganha uma bala quem adivinhar o tema. Se você não quiser bancar o adivinho, eu resumo. Os casais 40+ se encontram para um jantar, decidem fazer um jogo de deixar seus celulares no centro da mesa e terem suas notificações lidas em voz alta. Com relutância de uns e insistência de outros, todos participam. Eu nem preciso te dizer que dá merda, né? Pois é. Como se cabecinhas mundo à fora já não estivessem devidamente ferradas, vem (mais) uma produção reforçar que, sim, se você não deixa seu parceiro olhar o seu celular, alguma coisa você apronta. Mas eu repito: o problema não é, nem nunca foi, a ferramenta.


Se hoje a internet e os aplicativos e etc nos colocam em contato com diferentes pessoas, antes a falta dela nunca foi motivo para não ter traições. Para vocês terem noção, meu pai tinha duas famílias em uma cidade de 150 mil habitantes onde todo mundo se conhecia. Ele nunca precisou de uma ferramenta para facilitar a infidelidade porque ele já a praticava (?). Se hoje o celular facilita, ainda é a índole da pessoa que a efetiva, vamos dizer assim.

Aqui no blog, há mil anos, quando ainda fazia dessa página um espaço colaborativo, tivemos um debate sobre "Fuçar no celular do namorado". Acho que esse post foi ao ar em 2013 e desde então ele vem sendo um dos mais acessados diariamente. Mesmo 5 anos depois. São inúmeros comentários "desabafando", ou contando que descobriram traições por meio da invasão de privacidade, ou enxergando problema no fato do namorado não permitir o acesso ao aparelho. São muitos comentários - tantos que eu nem consigo mais responder -, mas se eu pudesse responder todos de uma vez com uma única frase, seria essa: por mais que diversas narrativas queiram nos mostrar o contrário, o problema nunca foi o celular, mas sim, essa crença de que amor significa ausência de privacidade.

Seguindo o raciocínio dessas pessoas, basicamente, só se você mostra seu celular para o seu namorado é que ele pode confiar em você. Então, senhoras e senhores, segundo as novas normas de relacionamentos amorosos, eu só amo meu parceiro se eu der meu celular desbloqueado nas mãos dele e permitir que ele leia minhas conversas no WhatsApp, olhe minhas fotos, meus aplicativos, o que eu assisti recentemente e minhas últimas buscas no Google. É isso. Acabou a privacidade porque se quer namorar, tem que dividir tudo. É, até o grupo do WhatsApp que tem uma foto da sua amiga de infância lambendo a sarjeta em uma festa universitária.

O grande problema não é o celular como ferramenta, mas a subtração da sua individualidade para a felicidade e conforto do outro. A partir do momento em que você deixa de falar com suas amigas da forma com que sempre fala, que você pensa duas vezes antes de comentar um vídeo engraçadinho que o colega da faculdade postou no Facebook, que não pesquisa a foto do Michael B Jordan sem camisa no Google ou que deixa de fazer qualquer coisa por medo de represálias, porque sabe que seu namorado vai ver, você já está em uma situação problemática. E o mesmo acontece se você exigir isso do outro!

É bobo repetir algo que eu falo muito nesse blog, mas nós somos seres individuais. As pessoas que escolhemos para caminhar com a gente, também. Você não precisa saber de todas as ações dele na internet e nem ele precisa saber das suas. Se a conduta do parceiro te tira o sono, melhor do que exigir celular é trocar de namorado, porque relacionamento é pra deixar feliz e não o contrário! Hoje em dia, com tudo o que consumimos diariamente, com o tanto de informação que a gente dissemina e absorve, quase não tem desculpa você ainda se prender a um discurso horrível de que controle é prova de confiança e que amor envolve perdas. De privacidade, de sono e de tranquilidade.

Amor não é controle. Amor é liberdade - independente de você estar em um relacionamento monogâmico ou não. As pessoas têm que ficar do nosso lado porque elas querem e não por qualquer outra convenção. O mesmo vale pra gente! Controle é uma ilusão completa e associá-lo a algo tão plural, tão grande e tão bonito quanto o amor é injusto e cruel. E é sempre importante lembrar que relações abusivas começam com o cerceamento de individualidades. 

Se o assunto te tira o sono, tente pensar que, mesmo com toda a imensidão de possibilidades que as rede sociais nos trouxeram, você e seu parceiro ainda escolheram um ao outro - e só isso basta. Não encare o celular como um problema que te faz perder o sono. Porque se for pra perder sono, sentir o coração acelerar e ir na boca, que seja por outro motivo. Se é que você me entende.


22/01/2019

Por um tempo, eu perguntava o porquê.

Por que as coisas aconteciam daquele jeito?
Por que você mudava tanto?
Por que tratava as pessoas que amava daquela forma?

Depois, eu não quis mais saber e me afastei como pude. Por um tempo, a minha presença ainda era necessária (sabe deus por quem), mas a minha atenção já era outra. Me fazia presente porque tinha que fazer, mas tudo o que eu mais queria era estar longe.

E então, depois de anos me sentindo sem voz, eu gritei.
Com um pretexto bobo, encontrei a força para dizer tudo o que sempre quis. E disse. Disse alto. Em meio a lágrimas. Com réplicas agressivas. Mas disse. Sai com um piano a menos nas minhas costas e com a tranquilidade de quem nunca mais precisaria voltar.



Mas veio a culpa. A culpa por me libertar. A culpa por desistir.
Da gente. De você.
De ter algo parecido com o que eu via em filmes e que secretamente eu sonhava com mais força do que sabia ter.

E então, eu tentei te consertar. Não com você, mas tentei te consertar em cada pessoa problemática que eu encontrei nos últimos 10 anos. Sem surpresa, encontrei muitos como você. A aparência física. Os gostos. O cheiro e, principalmente, a forma com que me tratava. Parecia que tinham feito o mesmo curso sobre como lidar comigo e como minar todo o amor que eu tinha por minha própria pessoa. Minaram minha confiança. Meu otimismo. Minha Felicidade.

E, de novo, eu desisti.

Da forma mais difícil eu aprendi que eu não poderia te mudar - nem a você e nem a ninguém. Que pessoas ruins não melhoram se não quiserem e que eu sou boa demais para alguns outros.

Aos poucos, aprendi a lidar com a culpa que ainda sentia por desistir. Por querer apostar em minha felicidade e pela felicidade de quem se sacrificou por mim, de alguma forma. Aprendi a lidar com a culpa que sentia por não querer mais saber. Por querer estar longe, de novo.

De vez em quando, ela aparece. Essa culpa. Mas sei que aos poucos ela muda de forma, ainda que demore um pouco. Ainda que eu tenha certeza de que ela não existe mais e perceba que ela só estava camuflada. Eu sei que logo ela muda e poderei dar outro nome a esse sentimento que vem do nada, mesmo quando eu acredito que ele passou.

Não vejo a hora de chamá-la de redenção.

05/01/2019

Na semana passada, eu fiz aquela corrente no Instagram em que você se propõe a dar conselhos sobre qualquer coisa, para qualquer pessoa. Entre as várias mensagens que recebi, uma delas me chamou a atenção e, sem dar nome aos envolvidos, vou compartilhar aqui na íntegra, afinal, é por causa dela que você está lendo esse texto, hoje. 

A mensagem era a seguinte "Conheci uma pessoa que é incrível. Tem uma boa posição no trabalho, se demonstra interessado, me trata bem, mas...Eu acho que não mereço. É sempre aquela sensação de que não mereço pessoas legais"

Eu não sei você, cara leitora ou leitor, mas eu já vivi muito essa situação. A de que eu não merecia pessoas legais. A de que o drama faz parte de qualquer relacionamento. A de que "se é fácil demais, alguma coisa está errada" e vários outros pensamentos que já estão tão enraizados em nossa mente que parar de focar neles é quase impossível. Pois é. Dias depois, como em um golpe lindo de alinhamento cósmico, na segunda-feira, fui jantar com meu amigo Akira e estávamos falando sobre o meu atual relacionamento. Ele, em tom de piada, me disse a seguinte frase: "Finalmente entendeu o valor que você tem? O que aconteceu que agora você está com alguém que realmente te merece?". Entre risos nervosos e hashizadas (?) de poke, sorri e respondi um tímido "pois é". 

Então, cá estamos.

VOCÊ JÁ VIU O MEU LIVRO "AMORES ETERNOS DE UM DIA"?

Dificilmente esse texto mudará sua vida ou te fará parar de se autossabotar e/ou entender que merece os amores mais lindos do mundo. Mas eu espero que, com ele, você consiga entender que não merece viver só histórias com finais ruins. E que no final, a frase que o professor Bill diz para o Charlie em "As Vantagens de Ser Invisível" é quase a verdade universal que revela o mistério da vida: 
"Nós aceitamos o amor que achamos merecer".

Quando fui responder o tal conselho pedido, na brincadeira que falei ali em cima, lembrei muito do meu próprio processo ao entender quem eu era, o que eu queria e o que eu merecia, de fato em relações amorosas. E adivinha à qual conclusão eu cheguei? Isso mesmo, aquela que a gente lê em 30/30 textos de autoajuda: que o primeiro amor que temos que construir é o amor por nós mesmas. E isso a gente vai conseguir como?

Isso mesmo.
SO-ZI-NHAS.

E o motivo pra isso é o mais simples de todos: é que só depois que entendemos o nosso valor, nossas vontades, os nossos pontos-fortes e aprendemos a lidar com nossos demônios, é que conseguiremos ter discernimento (eu usaria a palavra "paciência", mas vamos colocar discernimento, vai) para encontrar um alguém. É só depois de estabelecer uma relação legal com você mesma que você estará realmente pronta para entrar de cabeça em um namoro.

LEIA TAMBÉM: QUANDO EU DESCOBRI QUE ESTAVA AMANDO

É tão besta, né? Você pode até estar bufando agora, dizendo "eu não acredito que li tudo isso para alguém me dizer, de novo, que se eu não amo a mim mesma, como diabos eu vou amar outra pessoa! Eu assisto RuPaul, sabe?". Mas por mais que a gente diga e repita e diga de novo, a gente esquece que a companhia que a gente mais tem que curtir no mundo, é a nossa. O que vier depois, tem que ser ainda mais incrível que a gente.

E então, a gente entende o que merece.

É um processo longo. Às vezes a gente cruza com uns amores meio bosta. Às vezes a gente dispensa pessoas incríveis. Às vezes a gente só quer entrar num casulo e nunca mais sair... Mas faz parte. Como vi numa tirinha hoje, "estar sozinho é o primeiro passo para nunca mais estar". E é isso mesmo. Quando você aprende a amar sua companhia, você só vai querer se relacionar com alguém que seja tão boa quanto ela, tão incrível quanto você e que não te dê um grão a menos de tudo o que você merece. E vai por mim, você merece todo o amor que tenta dar aos outros.

É só se lembrar de guardar um pouquinho dele pra você :)

Esse texto foi publicado originalmente na minha newsletter - assina aqui - e, para tirar a poeira do blog, reaproveitei. 
Volto logo menos e feliz ano novo pra gente!
13/11/2018

O ano era 2015. Ou 2016. Talvez 2017? Mas, em um desses três anos, já vivendo em São Paulo e vivendo o que seria o meu maior período de paixões rápidas e irrelevantes, conheci uma pessoa que se tornou um dos meus mais especiais amigos. Tenho facilidade em atrair gente talentosa para perto de mim e ele, que também escrevia, um dia resolveu me contar a leitura que ele tinha feito sobre minha pessoa, de uma forma bonita e poética. Só que, aqui entre nós, eu não tinha gostado muito da versão dele. Para ele, a Michele era atraída pelo drama. Me senti ultrajada, afinal, ninguém gosta do sofrimento; ninguém gosta de sentir a garganta fechar por causa de alguma incerteza ou da falta de apetite que algumas situações amargas nos causam. Não, jamais. Impossível. Ahn ahn!

Ele riu diante das minhas negações incisivas e repetiu: "você gosta do drama e você precisa dele para criar". Em 2015, ou 2016, talvez em 2017, Felipe me traduzia antes mesmo da Taylor Swift escrever que jurava que não amava o drama, o drama é quem amava ela.

Anos (?) mais tarde, a constatação:
Não é que ele tinha razão?

Ilustração: Olimpia Zagnoli
De uma forma inconsciente, eu sempre me vi atraída por pessoas que, no fundo, eu sabia que me proporcionariam algum tipo de sofrimento. Uns me trariam aquele sofrimento doído, com direito a escolha de uma música que pudesse abafar o meu choro e dar um ritmo à dança das minhas lágrimas; outros me trariam aquele sofrimento bobo, que dá só uma dorzinha de estômago e deixa a boca seca; outros, porém, me trariam aquele sofrimento que incomoda por semanas, que apesar de não ser intenso, é prolongado. E todos eles viraram textos. Todos. Sem exceção.

Um virou carta. Outro virou manifesto. Outro virou relato. Outro virou reflexão.

Eu precisava da dor pra ter vontade de escrever e eu precisava escrever. Consequentemente, ia entrando em histórias conturbadas, assumindo papéis que não me cabiam e, assim, escrevendo. Relatando. Desabafando. Alugando vocês, leitores e leitoras, com histórias que eu já sabia do desfecho antes mesmo de começa-las. Vocês leram minhas lamúrias. Vocês leram minhas lágrimas. Vocês leram esses amores que eu já sabia que passariam longe de serem eternos.

Vocês estiveram aqui e, por isso, preciso contar para vocês que eu cansei.

Cansei. Não de escrever - isso nunca. Mas cansei de me entregar em relacionamentos que não eram relacionamentos. Cansei de fazer parte de situações que não precisavam da minha participação. Cansei de ser uma boa companhia para quem não a merecia. Cansei de sofrer. Sim, cansei de todos os sofrimentos citados ali em cima. Cansei, chega, deu.

Porque, depois que assumi meu cansaço e o abracei, veio a leveza. E apesar da minha leveza ter nome e sobrenome, aqui continuará sendo só leveza, porque foi isso que senti desde o início. Desde a a apresentação formal, desde a primeira troca de risos, desde o primeiro sorvete ruim do McDonalds compartilhado, desde a primeira vez em que dividimos a cama sem edredom. Ele me trouxe uma leveza absurda, algo com o qual eu não estava acostumada. Não teve insegurança causada propositalmente. Não teve jogo. Não teve teatro. Não teve sofrimento.

Não, nenhum deles.

Ilustração: Olimpia Zagnoli

Eu não estava acostumada com a leveza (no caso, a leveza como substantivo simples), mas diferentemente das vezes em que cruzei com pessoas leves, eu não quis fugir e sair correndo. Porque além de leveza, ali tinha conexão, afinidade. Talvez até amor, mesmo antes de ser, se me permitem o clichê. A leveza (aqui, como substantivo próprio) não me fez sofrer. Pelo contrário: a leveza me fez conhecer um novo cenário. Um cenário mais bonito e muito mais inspirador. Quem diria!

Se antes um me fazia querer escutar uma música para abafar o choro, agora eu preciso de uma música alta para ser cantada a plenos pulmões porque a felicidade é brega, mesmo. Se antes o estômago doía de agonia, hoje dói porque exagerei no lanche que foi preparado na churrasqueira da varanda. Se antes algo incomodava, hoje conforta. E como é bom se sentir confortável com uma situação; com um alguém.

Se eu estava feliz e com vontade de contar ao mundo, por que, então, a felicidade seria menos inspiradora que o drama? Da onde foi que nós tiramos que precisamos sofrer para criar? Que precisamos sempre da dor para ter arte?

Já fazia tempo que o drama tinha parado de me inspirar e precisei de histórias de outras pessoas para escrever, vocês viram. Por sorte, a leveza apareceu e, com ela, a minha inspiração. A minha vontade. Do mundo, de criar, de viver, de escrever, de amar. Assim, do nada, depois do meu expediente e em um boteco perto do trabalho.

Vou te falar que esses últimos tempos me fizeram constatar que sofrimento até rende músicas boas, mas a leveza, o substantivo simples, rende uma vida bem mais bonita.

E veja só,
Sem drama.

Quem diria!