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As quatro

Éramos quatro. Como qualquer enredo de série americana, éramos quatro amigas completamente diferentes que se completavam e se amavam como verdadeiras almas gêmeas. Tínhamos diferenças gritantes, mas que eram abafadas pelas semelhanças que, embora discretas, eram tão fortes que se sobressaiam a qualquer desavença causada pelos pensamentos distintos. Uma era calmaria, delicadeza, cuidado e amor. Outra era luta, garra, mas com festas e sorrisos. A terceira era serenidade, sinceridade e compromisso, enquanto eu, era sentimento, piadas e palavras. Uma mistura que deu certo por três anos obrigatórios e que daria, também, por toda uma vida que viria pela frente.


Os caminhos foram se desencontrando geograficamente. As conversas não eram mais diárias, o compartilhamento de conquistas não era presencial. Mas não tinha problema: o amor e a confiança eram mais fortes que as distâncias e correrias que apareceram com a vida adulta. Uma fez engenharia, outra fez biologia, a terceira optou pelo direito enquanto resolvi me aventurar no jornalismo. Por mais que a vida nos empurrasse para direções opostas, a amizade mantinha-nos lado a lado. Física ou emocionalmente. Por mais que não dividíssemos as mesmas carteiras brancas rabiscadas de caneta BIC, dividíamos grandes notícias. 

- Estou namorando! 

- Tirei 10 no TCC!

- Vou mudar para Ilha!

- Vou alugar uma casa com o Pluck!

- Terminei meu namoro. De verdade!

- Passei no mestrado!

- Vou me mudar para SP!

- Vou me formar! 

- Estou noiva!

E aí as nossas pernas quebraram. A primeira de nós quatro estava noiva. Era a Ju, e não podia ser outra. 

A Ju sempre foi uma princesa. Acreditava em príncipes encantados e não se contentaria com uma história que oferecesse menos que um castelo e um cavalo branco - mesmo que metaforicamente. Sempre sonhou com sua família, dois filhos ainda nova e uma vida tranquila. Ju sempre quis um amor do jeito que via em seus filmes favoritos. Chorava todas as vezes em que assistia Titanic, se emocionou em grupo com Diário de Uma Paixão e indicava, sempre, Um Amor Para Recordar. Deu seu primeiro beijo só quando realmente se sentiu preparada e nunca ligou em seguir o fluxo das melhores amigas. Ela tinha o seu próprio tempo. 

Mesmo depois de crescida, Ju mantinha sua delicadeza de menina, seus sonhos adolescentes e o sorriso mais lindo do mundo, que nos oferecia a melhor gargalhada já ouvida pelas outras três. A Ju estava noiva e seus olhos brilhavam enquanto nos contava do pedido e da decisão. A festa de noivado já tinha data e a cerimônia também. 


Apesar de não ser a primeira a casar, já que a segunda já vive com o namorado da adolescência (e que talvez me inspire um próximo texto sobre primeiros amores e como eles podem, sim, dar certo), era a primeira que se vestiria de branco e celebraria o seu amor com todas as pessoas que foram importantes em sua história, até então. Seria ela quem declararia em voz alta os seus votos para o escolhido com quem dividiria sua vida e jornada. A Ju ia casar. 

- Eu quero que vocês sejam minhas damas de honra. 

E seremos, no próximo dia 5/8. 

A história da nossa amizade poderia servir de material para um longa com título bonitinho e que renderia algumas bilheterias. A princesa, vai se casar. A desencanada, está morando em uma nova cidade pela terceira vez. A decidida, divide a sua vida há anos e caminha para uma década de relacionamento. Eu ainda estou esperando pelas minhas melhores histórias. Nós estávamos vivendo nossas vidas distantes, uma das outras. 

Mas sempre, sempre juntas. 

Meio ano

Foi amor à primeira vista.

Eu me apaixonei no momento em que a conheci. Ela era famosa e, por isso, sempre ouvia as pessoas falarem dela. O adjetivo que mais ficava em minha cabeça era relacionado à sua insanidade. "São Paulo é uma loucura", diziam sempre. Mas ela flertou comigo e eu me apaixonei. Confessei o meu envolvimento porque eu sabia que a queria para mim. O olhar apaixonado transformava até mesmo as coisas banais e irritantes em características apaixonantes. 

Era amor, de fato.

Os encontros começaram de forma esporádica e, a cada vinda, eu já sabia que meu coração era dela. Eu não conseguia me enxergar em outro lugar. Era como se eu me encaixasse e me enxergasse em seus detalhes. Com a mudança, eu tive todas as certezas do mundo. O encaixe aconteceu. 


Hoje eu acordei, não olhei a previsão do tempo e levei blusa de menos. Passei frio. Tomei uma garoinha, atrasei cinco minutos. Na volta, metrô cheio, trem parado, atraso de quase uma hora. Seria o típico caos paulistano mas, hoje, tinha um significado diferente, já que comemoramos nosso meio ano juntos. 6 meses de chuva, frio, de comer o pão de forma inteirinho - pois é, inclusive a bundinha.

O que era uma coisa sem compromisso de feriados prolongados, virou relacionamento sério. Me apaixonei tanto que aprendi a amar até mesmo seus defeitos. Nada é tão ruim que não possa ser amenizado com um café no Urbe, uma cerveja em algum bar em Pinheiros ou uma leitura do livro favorito no Ibirapuera. As conquistas ficam melhores se comemoradas com música alta no Cine Joia, em algum karaokê da Liberdade ou até mesmo no bar pé de chinelo na esquina da Alameda Campinas. 

Para ser sincera, a nossa relação não é perfeita e, na verdade, tem briga o tempo todo, mas o amor é maior que tudo. De verdade.

O nosso caso de verão virou casamento com comunhão total de bens. Churrasco com a família no domingo. Três cachorros juntos. É que além de identificação, tem muito amor. Aí não tem jeito mesmo, né? 

Dura. 

O amor da minha vida

Eu o encontrei na rodoviária. Estava muito frio e ele usava uma touca vermelha que imitava o capacete do Homem de Ferro. É meu sobrinho, não poderia ser diferente, não poderia ser outro herói. Ele usava, provavelmente, três casacos, o que o deixava parecido com um urso, já que estava bem cheinho e pequeno. Meu coração ficou aquecido quando vi aquele rostinho olhando para mim. Percebi, ali, que toda a saudade que eu conhecia não era nada perto da que eu realmente sentia. Eu só queria apertá-lo bem forte e tentar fazer meu coração entender que, sim, ele estava ali, no meu abraço. 

Tutu é o tipo de criança que chama a atenção por onde passa. É bonzinho demais, qualquer pessoa consegue arrancar um sorriso dele. É taurino, o menino. Na Paulista, se encantou com os cachorros, com os prédios, com o helicóptero e com a possibilidade de andar no meio de tanta gente. E andou, andou, andou, caiu, sorriu e andou de novo. O frio e o nariz vermelho não eram nada perto das possibilidades que ele enxergava ali. Era um mundo novo para ele caminhar e desbravar, mesmo que por apenas algumas horas.


Tutu é apaixonado por coisas simples. Se encanta com bolas e balões, gosta de comer com as mãos. Pede comida de um jeito incisivo e, se não fossem os "papá, papá, papáááá", seria como gente grande. Força uma gargalhada quando os adultos começam a rir de alguma coisa. O que ainda não tem de idade, já tem de traquejo social. Arthur é lindo. É a criança mais linda do mundo inteiro e sempre arranca elogios. "Que cabelo lindo", "que estiloso", "que olhão mais lindo", repetem. Tutu só ri. Chama tudo de cáca, "toca" todos os cachorros bravos e afaga os bonzinhos. Tutu é dono de um sorrisinho maroto e, esperto que só ele, já sabe exatamente quando usar. Um ano e já derrete corações propositalmente.

Todos perguntavam seu nome e idade.
"Arthur", eu respondi umas sete vezes em um curto período de tempo.

"Que criança feliz", constatavam.
Eu sorria como boba e acenava com a cabeça.

Sabe, amar uma coisinha dessa me fez perceber que o amor é simples demais. Um sorrisinho e você realmente esquece de qualquer problema. Uma palavra balbuciada e, pronto, o mundo é um lugar melhor. Sua vida ganha um novo propósito, os dias ficam mais fáceis de serem levados. Uma piscadinha e é o fim de qualquer sofrimento.

"Ele é bem feliz mesmo. E me faz, também", respondia mentalmente.


Tutu é uma criança feliz. Sorri muito. Gargalha, até. É dono de uma personalidade forte e amável ao mesmo tempo. Coisa de quem tem lua em gêmeos. Arthur fez meu fim de semana inesquecível e conseguiu algo que eu não imaginava que era possível: triplicou minhas saudades ao tentar matá-las.

Tutu foi embora e me deixou aqui.
Com os braços doloridos e com o coração cheio de saudade. 

Sobre a beleza de Frances Ha

Quando eu assisti Frances Ha, pela primeira vez, fui com uma expectativa absurda. Eu ouvia muitas pessoas que eu gosto falar muitíssimo bem do filme e, então, esperei ficar perdidamente apaixonada pelo longa. A verdade é que não foi um amor a primeira vista, não. Precisou uma dose de identificação para que eu, finalmente, entendesse a beleza do filme protagonizado por Greta Gerwirg. Esteticamente, a admiração foi instantânea: takes lindíssimos e uma fotografia bem interessante para um filme rodado no ano de 2012. Mas o que fez meu coração bater mais forte e falar: "Nossa, que filme!" foi, simplesmente, ter me identificado com uma adulta desajustada


Frances Ha é um filme que mostra a vida como ela é. Dividir apartamento, lidar com contas, entender que a profissão que você escolheu para a vida, talvez, não seja a melhor para você. É encontrar o amor de verdade em sua melhor amiga e achar tudo bem não ter um relacionamento porque você sabe que não quer se contentar "com o que tem pra hoje". É lidar com incertezas, inseguranças, imprevistos que quebram as pernas, mas nunca esquecer de quem você é. É ser impulsiva e se arrepender, também, porque a vida tem disso mesmo.


Filmes crus me encantam porque eles mostram beleza no cotidiano. Não é necessário um galã no nível Ryan Gosling para mudar a sua vida. Não é preciso você descobrir que é uma princesa perdida. Esse tipo de filme mostra que existe beleza em conseguir o emprego dos sonhos e o emprego dos sonhos não ser, exatamente, um puta emprego. Existe beleza em conseguir comprar o último cookie de chocolate meio-amargo e se apaixonar pelo cara narigudinho da aula de literatura. A beleza desses filmes está na representação da vida real e, por isso, só hoje, eu consegui entender a importância de Frances Ha pra gente. Porque hoje eu consigo apreciar a beleza do dia a dia. 




O trecho que eu já compartilhei setenta vezes aqui no blog

Frances Ha é um filme para você assistir e se sentir abraçado com o subir do letreiro de créditos. É pensar "cara, eu já passei por isso" com cada situação vivenciada pela protagonista que está bem longe de ser uma atriz dentro dos padrões hollywoodianos. Frances Ha mostra a beleza de sermos nós mesmas. 

Comuns e sobreviventes.

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Carnaval

Foi bom te ver
outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval
que passou

Me deparei com esse verso na Paulista, enquanto caminhava apressada para o trabalho. Eu estava alguns minutos atrasada e, geralmente, não olho nem para o lado na hora de atravessar a rua quando percebo que o relógio já bateu 9 horas. Porém, nesse dia, essa frase me chamou a atenção. Em uma fração de segundos, eu a li de uma outra forma. 


Adaptei.

Foi bom te ver
outra vez, mas
Tá fazendo um ano
que o nosso carnaval
passou

A música alta parou de tocar. Os confetes já foram retirados do salão. Não tem mais serpentina e nem mesmo um resquício de purpurina no final das minhas costas. A música alta, que às vezes até fazia com que os ouvidos doessem, fora substituída por uma calmaria que seria melancólica, se não fosse confortante.

O bloco tinha passado. As máscaras foram guardadas e não tinha mais bateria. Mesmo com a casa já em ordem, ainda era possível enxergar o pierrot ali, insistindo em uma marchinha solitária no meio do salão. Decidi dançar com ele mais uma vez para entender a sua insistência e auxiliar em sua solidão.

Os passos não eram mais os mesmos.
As voltas tinham tempos diferentes.

Apertei forte sua mão e sorri tranquilamente ao perceber que eu não era mais sua colombina.
Eu não cabia mais naquela dança. 

O nosso carnaval tinha acabado. 

E já fazia um ano.