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Revival

Às vezes acontece de uma boa série ser cancelada sem nenhum grande motivo aparente. O enredo tá se desenvolvendo bem, a química entre os atores está rolando e toda a equipe está em sinergia. A audiência também é boa e os caminhos a serem seguidos na história são diversos e interessantes, mas por um problema de continuidade no roteiro, uma divergência entre produtores ou simplesmente por conta de novos projetos da emissora, a série é cancelada.

Acaba.
Assim, do nada.

O cancelamento repentino deixa todo mundo estupefato, olhando para o nada e perguntando o porquê. "Será que foi o figurino?", "Será que as produtoras-executivas não estavam em sintonia?", "Hum... Aposto que foi o recesso do coadjuvante bonitinho..."

Listam-se possíveis motivos. As tramas ficam sem desfecho, as perguntas sem respostas e as cenas mais esperadas acabam não indo ao ar.

Passa-se um tempo. Aparecem as críticas. "Como assim acabou dessa forma?", "Eu não acredito, que falta de vergonha na cara!", "Eu sabia que não ia durar muito". 

Surgem as lamentações. "Poxa, mas eu gostava tanto...", "Eu enxergava muito potencial, tô realmente triste", "Não é possível que tenha acabado".

Até aceita-se o término que foi enfiado goela abaixo.
Mas, quando a série é realmente boa, ela tem um revival.

Ilustra: Robin Eisenberg

O revival é uma prestação de contas aos envolvidos em toda a situação. Veja bem, não se trata de uma continuação, apesar de dar essa ideia e poder seduzir os personagens com a possibilidade. O revival é uma forma justa, sincera e coerente de encerrar um ciclo. É demonstrar respeito, carinho, amor e consideração com aqueles que fizeram toda a história.

O revival brinca com as possibilidades porque não existe mais o peso de ter que fazer dar certo. Não tem mais regras porque não existe mais construção. Pode errar a fala, pode não ter atuação, são permitidas falta de maquiagem, falhas no roteiro e grandes doses de caco e improviso. 

No revival, usa-se óculos de graduação* e qualquer banalidade é vista com um filtro de amor, paixão e otimismo. O corriqueiro vira belo porque sabe-se que não será visto novamente. O banal é irresistível porque ele não será mais rotina e um pequeno diálogo torna-se memorável porque dificilmente será repetido. 

Isso tudo é lindo justamente por sua finitude e certeza de que, depois dali, acabou. E não é porque acabou que não levou felicidade aos protagonistas. 

O revival é gentil e fala muito, mesmo sem utilizar palavras.
Passa mensagem de um jeito despretensioso e conforta como um abraço. 

Indiretamente, o revival diz que o amor continua, ainda que você mude o canal,

ainda que fora do ar.

//

*óculos de graduação: um termo que o Ted usa em How I Met Your Mother para falar de "últimos momentos" que, na condição de "últimos", são observados de um jeito mais doce, amoroso e que em nada condiz com a realidade. 


E S S E  P O S T   F A Z   P A R T E  D O  B E D A  2 0 1 7 !
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outros blogs que estão participando e, também, o grupo "Se Organizar,
Todo Mundo Bloga", clicando nesse link aqui. ♥

BEDA 2017 - Eu acredito

E cá estamos tentando participar, pelo terceiro ano consecutivo - e sem sucesso - do BEDA. Nunca estive tão displicente com os posts aqui no blog e eu sempre fico com um peso na consciência de abandonar esse espaço que eu tanto amo e que tem tanto de mim. Então, para fazer de agosto um mês menos chato, expor mais o que estou sentindo, trabalhar minha escrita and cumprir essa meta que se repete ano após ano, cá estou para dizer que, sim, senhoras e senhores...

Vai ter BEDA! 

Ilustra: Grace Lee

Não tenho ideia do que vou postar, não tenho a menor noção de como vou me planejar pra isso, mas estou otimista - como sempre. Inclusive, estou tão otimista que acho que vocês super vão me dar sugestões de temas e posts para manter o MOBIC atualizadinho durante todo o mês. Né? :) 

Amanhã começo a desenterrar antigos rascunhos e faço o primeiro "post de verdade" .

Conto com vocês para me acompanharem nesse caminhozinho que será percorrido ao longo de 31 dias. 

Beijos e até amanhã,
Mih

Sobre amores e sapatos

Eu me apaixonei por um sapato. Ali, em meio a vários outros modelos, foi ele que fez meus olhos brilharem da forma mais intensa e genuína possível. Era pra ser meu, foi feito pra mim e não tinha nenhuma outra explicação. Foi amor à primeira vista. 

Sem nenhuma surpresa, eu passei a usá-lo sempre – sempre mesmo. Ele era tão bonito que eu não conseguia escolher nenhum outro. Ele combinava com qualquer composição que eu fizesse, com qualquer humor que eu estivesse e sempre me deixava feliz e confiante. 

Era meu sapato favorito no mundo e eu não me imaginava usando outro. 

Pouco tempo depois, ele começou a machucar os meus dedos. Começou incomodando o dedinho, depois foi machucando a unha do dedão e, quando menos percebi, ele me causava muita dor até no tornozelo. Era intenso e até me tirava algumas lágrimas, mas ainda assim, meu amor por aquele modelo era maior que o desconforto causado. 

Insistia em usá-lo constantemente. Era o sapato que eu mais gostava na vida, não aceitava a ideia de que ele pudesse me machucar. 

Ilustração: Grace Lee


Mas machucava.
E o que era apenas desconforto, virou uma dor lancinante.

Após meses de tentativas e de sentir dor em calçá-lo, respirei fundo, reuni todas as minhas forças, coloquei-o no fundo do armário e tranquei. 

Era hora de testar outros modelos. Nenhum era como ele, mas ao menos, eles não me faziam sentir dor.
...

Com o tempo, fui aprendendo a priorizar o conforto. A amar a sensação de pés descalços na areia ou do delicioso conforto de um chinelo com meia. Fui me apaixonando pelas sensações e me acostumando, felizmente, a viver sem dor. Salto alto saiu da minha lista de paixões da mesma forma em que as botinhas divertidas assumiram o primeiro lugar na minha lista de amores. 

Eu era outra pessoa além do estilo e do senso estético e o que eu usava antes não tinha nada a ver com o que via no espelho nos dias atuais. 

Anos depois, ao mexer no fundo do armário, encontrei o sapato que há tanto já amei. Não conseguia imaginar que um dia aquele modelo, que em nada combina com o que sou, pudesse ter sido tão importante na minha vida. Não entrava na minha cabeça que eu preferia machucar meus dedos a deixá-lo de canto. 

Mais que isso. Não conseguia entender como foi que um dia eu pude amar tanto algo que nunca foi feito para mim. 

Fechei o armário e sorri. 

A dor causada pelo aperto daquele sapato me fez aprender o que deveria ser priorizado e o quanto eu poderia ser mais leve se tivesse mais movimento. 

Sorri sozinha ao perceber o quanto mudei e o quanto aquilo, que já foi a minha vida, não tinha nenhum outro lugar a não ser a presença em fotos antigas.

[E o fundo do meu armário trancado].